segunda-feira, 22 de março de 2010

Ele não é "o cara" ? Pois bem, depois de 8 anos de uma presidência bem sucedida (na economia, internamente) o "cara" quer alçar voos mais altos: é notório o desejo de Lula de tornar-se secretário geral da ONU, quando acabar o mandato de Ban-Ki-Moon em 2011. Porém, o carisma pessoal é pouco para ocupar cargo com tamanha responsabilidade. À parte a questão óbvia de comunicação, seria o primeiro a ocupar tal cargo sem nenhuma fluência no inglês, o que seria um estorvo evidente em qualquer simples reunião na ONU, Lula ainda teria de convencer importantes players internacionais, não só os citados no texto, EUA e Inglaterra, mas igualmente Rússia e China. Contam contra ele suas desastrosas declarações sobre a questão dos presos políticos em Cuba, suas aproximações com o Irã, a anuência do Brasil com os desmandos de Chávez, a incômoda falha em resolver a questão de Honduras e por último, a desconfiança, plenamente justificada, de que Lula seria o presidente do Brasil na ONU, jogando pesado para alimentar interesses de um único país e aliados, o que é evidentemente contrário a própria ideia de um organismo multilateral como a ONU, que exige postura mais discreta e neutra em complicadas negociações internacionais envolvendo vários interesses. Enfim, pode ser um sonho distante, como como surpresas acontecem, e na vida deste imigrante nordestino quase tudo pôde acontecer, não podemos descastar de vez a hipotese.


Gabriela Mello, da Agência Estado
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que recentemente brincou estar "contaminado pelo vírus da paz", estaria avaliando uma tentativa de se tornar o próximo secretário-geral da ONU, segundo reportagem publicada no sábado pelo jornal britânico The Times.

Diplomatas dizem que Lula, que deixará a presidência em janeiro, pode buscar o principal posto diplomático quando o primeiro mandato de Ban Ki Moon terminar no final de 2011, disse a publicação. A ideia teria sido lançada primeiramente pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, durante uma reunião da cúpula do G20, em Pittsburgh, em setembro.

Procurado pelo diário, Marco Aurélio Garcia, assessor da presidência para assuntos internacionais, se recusou a descartar a possibilidade. "Ele tem enorme interesse em questões internacionais, no processo de integração da América do Sul", afirmou ele. "Ele tem uma grande paixão pela África. Ele realmente quer fazer algo para ajudar a África."

De acordo com o jornal, o estilo pessoal e a capacidade de Lula de ser manter relações amigáveis com todos os lados - China e Estados Unidos ou Irã e Israel - elevaram seu perfil internacional. O The Times citou ainda a postura do presidente em uma visita na última semana ao Oriente Médio, na qual disse: "O vírus da paz está comigo desde que eu estava na barriga da minha mãe."

A publicação reconheceu, contudo, que Lula recentemente adotou posições que desagradaram a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, dois dos países que podem vetar sua indicação. Segundo o jornal, ele aborreceu Washington ao receber o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, em novembro e ao criticar as sanções contra o país. A reportagem destacou ainda o apoio do presidente à Argentina na disputa com os britânicos pelas ilhas Malvinas.

Segundo o jornal, a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, teria classificado as ambições de paz mundial de Lula como quase "risivelmente ingênuas". Diplomatas esperam que Ban Ki Moon, cauteloso ex-ministro de Relações Exteriores da Coreia do Sul, tente um segundo mandato de cinco anos, informou o The Times.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Israel, EUA, Brasil e territórios

Nesta semana, dia 15 de março de 2010, Lula inicia uma visita bastante importante ao Oriente Médio, tanto em Israel quanto nos territórios palestinos. Sobram temas de interesse, que vão desde o apoio do Brasil a posição iraniana até a questão, recente, de novos assentamentos judaicos em territórios defendidos pelos palestinos, tema que surpreendeu até mesmos os EUA, tradicionais aliados de Israel. A questão é : se a direita ultra-religiosa israelense consegue "pregar peças" até mesmo nos EUA, seria possível o Brasil tornar-se um mediador de peso neste jogo?

Artigo: O jogo perigoso de Israel
Thomas Friedman
Fonte : site Estadão – acesso em 15 de março de 2010

Sou um grande fã de Joe Biden. O vice-presidente é um infatigável defensor dos interesses americanos no exterior. Por isso me custa dizer que, em sua recente visita a Israel, quando o governo do premiê Binyamin "Bibi" Netanyahu esfregou-lhe no nariz alguns projetos habitacionais novos na contestada Jerusalém Oriental, Biden perdeu uma chance de enviar um poderoso sinal público.
Ele devia ter fechado bruscamente seu bloco de notas, voado para casa e deixado a seguinte nota rabiscada para trás: "Mensagem da América ao governo israelense: Amigos não deixam amigos bêbados dirigir. E bem agora, vocês estão guiando embriagados. Vocês acham que podem embaraçar seu único verdadeiro aliado no mundo, para satisfazer alguma necessidade política doméstica, sem consequências? Vocês perderam totalmente o contato com a realidade. Chamem-nos quando ficarem sérios. Precisamos nos concentrar na construção de seu país."
Acho que isso teria enviado uma mensagem muito útil por duas razões. A primeira, que os israelenses tocaram numa pergunta que muita gente está fazendo sobre a equipe do presidente Barack Obama: até onde vai a firmeza desses caras? A última coisa de que o presidente precisa, num momento em que tenta se impor a Irã e China - para não mencionar o Congresso -, é parecer que o aliado mais dependente dos Estados Unidos consegue intimidá-lo.
E a segunda, Israel precisa de um safanão para acordar. Continuar construindo assentamentos na Cisjordânia, e mesmo casas na disputada Jerusalém Oriental, é insanidade pura.
Yasser Arafat aceitou que subúrbios judeus na Cisjordânia ficariam sob soberania israelense em qualquer acordo de paz e também faria das partes árabes de Jerusalém Oriental a capital do Estado palestino.
A planejada expansão habitacional de Israel suscita questões sobre se Israel algum dia estará disposto a admitir uma capital palestina em bairros árabes de Jerusalém Oriental - um grande problema.
Israel já abocanhou boa parte da Cisjordânia. Se quiser continuar sendo uma democracia judaica, sua única prioridade agora deveria ser um acordo com os palestinos que lhe permitisse trocar esses conjuntos habitacionais na Cisjordânia ocupada por uma quantidade igual de terra de Israel para os palestinos e, então, colher os benefícios - econômicos e de segurança - do encerramento do conflito.
Infelizmente, não foi o que ocorreu na semana passada. Nos últimos nove meses, o enviado especial dos EUA, George Mitchell, vinha tentando encontrar um modo de iniciar algum tipo de conversação de paz entre israelenses e palestinos. Os palestinos não confiam em Bibi e o premiê tem dúvidas sobre se a dividida liderança palestina conseguirá negociar.
Mas Mitchell foi capaz de persuadir os dois lados a acertarem "conversações de aproximação". Os assessores de Mitchell e de Netanyahu firmaram um acordo informal: se os EUA mantiverem as conversações, não haveria nenhum anúncio de construções em Jerusalém Oriental.
Então, o que houve? Biden chegou um dia após o início das conversações de aproximação e o Ministério do Interior de Israel anunciou a aprovação de um plano para construir 1.600 casas em Jerusalém Oriental.
Netanyahu disse que foi tomado de surpresa. Provavelmente é verdade num sentido estrito. A medida parece ter sido parte de uma competição entre dois ministros sefaraditas de direita do partido religioso Shas sobre quem pode ser o maior promotor de construção de casas para judeus ortodoxos sefaraditas em Jerusalém Oriental.
É uma medida de quanto Israel considera garantido nosso apoio e quanto a direita religiosa israelense está por fora das necessidades estratégicas dos EUA.
Biden - um verdadeiro amigo de Israel - foi citado dizendo a seus interlocutores israelenses: "O que vocês estão fazendo aqui enfraquece a segurança de nossas tropas que estão combatendo no Iraque, no Afeganistão e no Paquistão. Isso nos coloca em perigo e ameaça a paz regional."
Todo esse alvoroço também nos desvia do potencial deste momento: somente um primeiro-ministro de direita, como Netanyahu, pode fazer um acordo sobre a Cisjordânia; as políticas reais de Netanyahu no terreno ajudaram os palestinos a desenvolver sua economia e criar sua própria força de segurança reconstruída que está trabalhando com o Exército israelense para impedir o terrorismo; os líderes palestinos Mahmoud Abbas e Salam Fayad são tão genuínos e sérios sobre trabalhar para uma solução quanto qualquer um que Israel espere encontrar; o Hamas interrompeu seus ataques da Faixa de Gaza contra Israel; com os árabes sunitas obcecados com a ameaça do Irã, sua disposição de trabalhar com Israel nunca foi tão alta, e a melhor maneira de isolar o Irã é tirar a carta do conflito palestino da mão de Teerã.
Em suma, pode haver uma real oportunidade aqui - se Netanyahu quiser agarrá-la. O primeiro-ministro israelense precisa decidir se quer fazer história ou ser mais uma vez uma nota de rodapé dela.

TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK
Embaixador diz que relações entre Israel e EUA são as piores em 35 anos
Atritos cresceram com anúncio de expansão de assentamentos durante visita de vice-presidente americano
Fonte : site Estadão – acesso em 15 de março de 2010
15 de março de 2010 | 10h 17
As relações diplomáticas entre EUA e Israel são as piores em 35 anos. Assim avalia o em embaixador israelense em Washington, Michael Oren, segundo a edição desta segunda-feira, 15, o jornal israelense Ha'aretz.
Oren, durante a reunião especial para analisar o estado dos laços bilaterais entre os países, afirmou que a atual crise é a mais séria nas relações com os americanos desde o confronto entre Henry Kissinger e Yitzhak Rabin em 1975, quando os EUA exigiram que Israel se retirasse de parte da Península do Sinai.
No domingo, já depois do encontro dos cônsules, o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, tentou diminuir a tensão com os EUA ao classificar como "lamentável" o anúncio da construção de 1.600 casas em Jerusalém Oriental durante a visita a Israel do vice-presidente americano, Joe Biden, durante a semana passada.
Netanyahu voltou a se desculpar pela aprovação de novas construções na colônia judaica de Ramat Shlomo, anunciada no último dia 9, um dia depois de a Casa Branca confirmar o início de negociações indiretas com os palestinos após mais de um ano de estagnação no processo de paz.
O anúncio da ampliação de uma das colônias judaicas foi duramente condenado pela comunidade internacional e pela administração de Obama. Uma das críticas mais duras partiu da secretária de Estado americana, Hillary Clinton. Na sexta-feira passada, ela telefonou para Netanyahu e, segundo a imprensa, "repreendeu" o premiê pelo fato de o anúncio sobre as novas construções ter coincidido com a visita de Biden.