quarta-feira, 18 de julho de 2012

Síria: ruim com Assad, pior ainda sem ele?

É impossível ter uma opinião isenta sobre a guerra civil em curso hoje na Síria. Ninguém aliás duvida que hoje este país está em guerra civil. E nas guerras, como sabemos, a primeira vítima é a verdade.
Do lado ocidental, leia-se EUA e seu "pet", a Europa, há a opinião de que Assad deve sair por "violações aos direitos humanos". Que o regime de Assad matou no passado e o faz hoje, ninguém duvida. Mas quem lembra de que em outra revolta árabe contra ditadores, no Iêmen, tropas da Arábia Saudita, aliado incondicional dos EUA, também reprimiram com violência rebeldes ? E o que os EUA disseram a respeito? Nada, claro. É evidente que "direitos humanos" é só uma boa frase para ser usada quando sólidos interesses geoopolíticos estão em jogo. No caso da Síria, uma intervenção estrangeira sempre foi um problema. Ao contrário da Líbia ou mesmo do Iraque, as forças armadas sírias são bem equipadas, com equipamentos de grande poder de fogo, embora antigos e o mais importante: a Síria tem poderosos aliados internacionais, China e Rússia. O que os EUA querem? Tirar Assad do poder, que é um regime anti-Israel e apoiado pelo Irã. Sem Assad, o Irã perde um aliado poderoso, e oa EUA podem exercer maior poder de influência na região. Porém, a situação é tão complexa que até isso pode virar contra os EUA, já que os grupos que fazem oposição a Assad são islâmicos sunitas, nem um pouco simpáticos ao ocidente. A Síria é dominada por um ramo muito específico do Islamismo, os alauítas e tem forte presença cristã ortodoxa. Há o temor de que um regime sunita torna-se ainda mais radical que Assad. Mas ao mesmo tempo, a Rússia também não quer que Assad saia do poder. Os motivos são bem explicados no texto abaixo, que retoma um dos temas centrais no estudo de R.I.: a soberania estatal. Há outro aspecto que a meu ver o texto não abordou: a presença cultural do cristianismo ortodoxo, cuja origem foi a Síria e que é a vertente dominante na Rússia. Não é confortável para uma Rússia majoritariamente cristã ortodoxa que a origem de sua religião caia nas mãos de sunitas radicais.
Curioso é que Assad não é amigo do ocidente, mas Israel e EUA tem grande temor de que um outro regime da Síria seja ainda pior para seus interesses. Neste sentido o que eles querem é evitar uma guerra civil que poderia desmantelar o estado sírio, levando grave instabilidade, inclusive com possível perda de controle de armas químicas ( sim, na Síria elas existem) a toda região, com óbvias ameaças a Israel. E ao mesmo tempo, adiantar-se à situação: se Assad cair, é melhor que seja um novo governo mais simpático ao ocidente, por isso os EUA apostam em sua queda. Quebra-cabeça difícl de resolver, onde as apostas são altas.



fonte do texto: BBC Brasil

BBC Brasil
MOSCOU - A escalada de violência na Síria, agora classificada pela ONU como estado de guerra civil, deixa cada vez mais aparente a posição quase isolada de Moscou das grandes potências ocidentais. Por que então o Kremlin segue apoiando o governo do presidente Bashar Assad ? O comentarista político Konstantin von Eggert, da rádio Kommersant, analisa as razões do governo Vladimir Putin de seguir dando respaldo a Damasco:
"Analistas tendem a explicar a posição inflexível de Moscou para com a Síria citando o comércio de armas (o regime de Bashar Assad teria encomendado equipamentos militares russos avaliados em cerca de US$ 3,5 bilhões) e a base naval militar russa no porto sírio de Tartus. Mas apenas isso não justifica a aparente indiferença aos efeitos negativos que sua defesa do governo Assad tem nas relações com os EUA, a União Europeia e a maioria dos países árabes.
A explicação tem muito a ver com as políticas domésticas russas e as obsessões de sua classe política. Ao apoiar Damasco, o Kremlin diz ao mundo que nem a ONU ou qualquer outro grupo de países tem o direito de dizer quem pode ou não governar um Estado soberano. Olhando sob este ângulo, a posição russa ganha novo significado.
Desde a queda de Slobodan Milosevic em 2000, e especialmente depois da "Revolução Laranja" de 2004 na Ucrânia, a liderança russa é obcecada com a idéia de que os EUA e a União Europeia arquitetam a queda dos governos que, por algum motivo, julgam inconvenientes. Putin e sua equipe parecem convencidos de que algo assim pode acontecer na Rússia.
Defesa própria
A classe política russa nunca aceitou conceitos como "responsabilidade de proteger" que limitam a capacidade de governos reprimirem seu próprio povo. Soberania, para a liderança russa, significa uma licença sem limites para os governos fazerem o que quiserem dentro de suas fronteiras nacionais.
Desde a operação da Otan contra a antiga Iugoslávia em 1999, Moscou desconfia profundamente da retórica humanitária ocidental, considerando-a nada mais do que camuflagem para a troca de regimes. A crise líbia no ano passado reforçou estes temores. Muitos dirigentes russos, incluindo Putin, consideram a abstenção do então presidente Medvedev na votação do Conselho de Segurança que autorizou uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia um desastre.
Na visão de Putin, ela abriu caminho para intervenção externa em favor de um dos lados e a remoção de Kadafi no que era, essencialmente, uma guerra civil. Parece que o "novo velho" presidente russo está decidido a não deixar isso acontecer de novo. Assim, a posição de Moscou se torna não apenas uma forma de defesa de interesses particulares, mas uma declaração política.
Nova Líbia?
Moscou sentiria ser possível a formação de uma nova coalizão para a remoção militar de Assad, ao estilo do que aconteceu na Líbia?
Acredito que sim. Mas como ouvi recentemente de um alto diplomata russo: "Não podemos impedi-los (aliados ocidentais e ricos países do Golfo Pérsico) de tentar. Mas nunca daríamos a eles a autorização de uma resolução da ONU".
O que se lê nas entrelinhas é que a Rússia também dificultará a tarefa o máximo possível. Moscou diz ter influência especial sobre o regime em Damasco mas parece que, em vez de aconselhar Assad a modificar suas atitudes, os emissários russos diziam, há até pouco, "deixe-nos ajudar vocês. Use algumas medidas cosméticas criativas e nós poderemos te defender melhor".
Esta atitude parece ter deixado de funcionar quando fracassou a missão de Kofi Annan e a legitimidade do regime sírio deu impressão de implodir rapidamente.
Barganha
O Kremlin agora cogita a possibilidade de saída de Assad, mas a considera improvável. O governo russo acredita que com sua ajuda, mais a de China e Irã, o governo sírio pode derrotar seus oponentes.
No entanto, se Assad for forçado a sair, a Rússia vai se esforçar para criar um ambiente de negociações que envolva atores externos e possibilite a Moscou algum poder de barganha sobre seus interesses militares e comerciais na Síria. Mas a meta principal para Moscou seguirá sendo uma solução que permita uma saída honrosa para Assad que, pelo menos não no exterior, pareça ter sido uma derrubada clássica de regime.
À boca miúda, dirigentes russos costumam citar o caso iemenita, no qual o veterano presidente Ali Abdullah Saleh deixou o poder, ganhando imunidade e seu vice-presidente foi instalado como chefe de Estado. Mas dada a magnitude do drama sírio, tal cenário parece cada vez mais improvável, coisa que deixaria Moscou atrelada ao regime de Assad até seu amargo fim".

segunda-feira, 26 de março de 2012

Multilateral X Unilateral : ainda a questão do Estado

Multilateral X Unilateral : ainda a questão do Estado
Ele foi o primeiro Estado criado a partir de um organismo multilateral, no caso, pela ONu em 1948. Ele foi a esperança de milhões de judeus, perseguidos durante séculos, principalmente na Europa. Ele, claro, foi criado sob o impacto sinistro do massacre de judeus executado pelas mentes racistas doentias da Alemanha ( embora, o antissemitismo não seja apenas alemão, mas europeu). E hoje, este Estado rompe com Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, a mesma entidade que o criou.

Se eu fosse judeu, ficaria triste e revoltado até, pelo abuso da memória dos que foram mortos na II Guerra. Pois cada vez que alguém critica o Estado de Israel pelos absurdos que ele comete contra a população palestina, é imediatamente comparado aos nazistas e é taxado de antissemita. Abuso da memória da dor alheia: duplamente assassinados, pelos nazistas e, e é pesado mas verdadeiro dizer isto, pelo atuais comandantes da política externa do Estado de Israel.

Sim, Israel é um Estado que tem o direto de existir. Além do mais, tem sim o direito de se defender. Por isso, tem o direito de atacar ? Tem o direito de oprimir ? Seu passado triste gera uma "não-culpa" eterna, que permite ao Estado de Israel toda sorte de imunidade, sem nenhuma represália? Imagine se o Irã simplesmente sai da Agência Nuclear da ONU ? Em poucas semanas é bombardeado. Se o mesmo Irã não colabora com a mesma ONU, sofre sanções. Quais as sanções que Israel sofrerá por não mais colaborar com o Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas ? Claro, nenhuma. Se concordo com as frases idiotas antissemitas ditas por alguns membros do governo iraniano? claro que não. Mas se os organismos multilaterais são órgãos que visam a conter o "self-help" e o unilateralismo estatal, então Israel, que foi criado como Estado por um desses organismos, deveria, no mínimo, se deixar criticar construtivamente por eles e mudar sua política em relação aos assentamentos palestinos, tristemente se assemelhando aos guetos monstruosos do leste europeu dos anos 30. Responder a um passado de ódio com mais ódio: eis a receita para o óbvio, mais ódio ainda. Mas pelo jeito, o "complexo de Massada" de que alguns críticos falam, ainda é forte em Israel. O argumento do próprio Estado israelense diz isso:
"Eles sistemática e serialmente tomam todo tipo de decisão e condenação contra Israel sem nem simbolicamente considerarem as nossas posições". Em suma, TODO o mundo é antissemita...somos o único povo perseguido no mundo, temos o direito de atacar sem responder a nenhuma lei ou organismo multilateral.

Se todos os Estados pensassem assim...






texto: Folha de S. Paulo: 26/março/2012
Israel anunciou nesta segunda-feira o rompimento dos seus contatos com o Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, que na semana passada decidiu investigar os assentamentos judaicos da Cisjordânia.

O rompimento, anunciado pela chancelaria de Israel, implica que os investigadores da ONU não poderão realizar seu trabalho pessoalmente no território israelense ou na Cisjordânia, que é um território palestino ocupado por Israel.

"Não estamos mais trabalhando com eles", disse o porta-voz Yigal Palmor. "Estávamos participando de reuniões, discussões, arranjando visitas a Israel. Tudo isso acabou."

A investigação internacional, solicitada pela Autoridade Palestina, foi aprovada na quinta-feira, e o único país do conselho a votar contra foram os Estados Unidos. Líderes israelenses disseram que o conselho age de forma hipócrita e tendenciosa contra Israel.

"Eles sistemática e serialmente tomam todo tipo de decisão e condenação contra Israel sem nem simbolicamente considerarem as nossas posições", queixou-se Palmor.

Segundo ele, Israel vai continuar cooperando com outros órgãos da ONU.