sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Fim de uma guerra sem sentido

Parece que a lucidez está voltando a Casa Branca: Obama cumpre o prometido e irá tirar os EUA do Iraque até o ano que vem.
De todas as guerras travadas pelos EUA, essa pode ser considerada uma das mais desastradas. Foi criada por uma sucessão de mentiras impressionantes: primeiro, Sadam Husseim abrigava terroristas da Al-Qaida, o que é uma bobagem, pois Sadam nunca foi um fundamentalista islâmico, muito ao contrário, lutou contra eles na guerra Irã-Iraque durante os anos 80. Segundo, o Iraque teria armas químicas, o que igualmente é bobagem, pois as sanções da ONU contra o pais depois da primeira guerra do Golf arrasaram a economia e a capacidade de produção de armas iraquiana. Para dar suporte a ima invasão insana,o governo americano comprou países na ONU, mesmo assim, ao arrepio da lei internacional e desprezando a ONU que eles mesmos ajudaram a criar no pós guerra, invadiram sem a autorização do conselho de segurança.
Resumo de tudo: os EUA invadiram um país com enormes divisões étnicas, religiosas e tribais, destampando uma panela de pressão que era mantida fechada pela ditadura violenta de Sadam. Verdade seja dita: tirar um monstro como Sadam do poder é bom. Mas duas outras verdades sejam ditas: foram os EUA que o colocaram lá, segundo, o Iraque com ele era menos pior do que é hoje, um país em frangalhos e em permamente guerra civil.
Mais de 4000 soldados americanos mortos, a maioria latinos em busca do green card, mais de 100 mil civis iraquianos mortos, numa banho de sangue horrendo, um país destruído, mais de 1 trilhão de dólares ( de acordo com algumas fontes ouvidas) em custos, tudo isso ao arrepio do Direito Internacional e do bom senso: se a guerra do Vietnã teve mais impacto, pelo menos ela estava na lógica da Guerra Fria. A Guerra do Iraque conseguiu, além de ser fracassada, estar inserida numa lógica inútil de poder do Estado pelo poder do Estado: e conseguiu uma proeza, vencedores, os EUA saíram perdendo. Em vidas, em dinheiro, em prestígio, em liderança mundial.
Tirar soldados americanos de lá não vai levar o pais à guerra civil : levar soldados americanos para lá o fez. Sair do Iraque pode ser o primeiro passo para a reconstrução da imagem americana no mundo, além de um imenso alívio financeiro para um país à beira da depressão. Termina assim uma guerra que nunca devia ter começado.


texto BBC-Brasil: O presidente americano, Barack Obama, anunciou nesta sexta-feira que as missões de combate dos Estados Unidos no Iraque devem terminar até 31 de agosto de 2010, quando a maior parte dos 142 mil soldados americanos devem deixar o território iraquiano.

Obama disse que, depois desta data, entre 35 mil e 50 mil soldados devem permanecer no Iraque para fornecer treinamento para as forças de segurança iraquianas. A saída deste último grupo está prevista para 2011.

"Deixe-me dizer isso da forma mais clara possível: até 31 de agosto de 2010, nossas missões de combate no Iraque vão terminar", afirmou o presidente americano, durante discurso na Carolina do Norte, onde detalhou sua estratégia para o Iraque e seus vizinhos. "Pretendo tirar todos os nossos soldados do país até o fim de 2011."

O plano anunciado é considerado um meio termo entre a relativamente rápida saída prometida por Obama durante a campanha eleitoral e a retirada mais gradual, preferida por alguns setores militares americanos.

Durante a campanha, Obama havia dado o prazo de 16 meses, após ter assumido a Presidência, para a saída total dos militares americanos do país.

Metas 'claras'

"O Iraque ainda não é seguro e teremos mais dias difíceis pela frente", disse Obama. Segundo o presidente americano, a solução de longo prazo para o Iraque deve ser política, e as decisões sobre o país devem ser tomadas pelos iraquianos.

Obama também prestou homenagem ao sacrifício de soldados americanos que serviram o país na guerra nos últimos seis anos.

O líder americano disse ainda que vai aumentar os serviços de saúde oferecidos aos veteranos de guerra, uma reivindicação recorrente de ex-combatentes dos Estados Unidos.

Obama disse ainda que uma lição importante a ser aprendida com o conflito iraquiano é que os Estados Unidos devem entrar em guerras com metas claras, pesar o custo de suas ações e"comunicar honestamente este custo ao povo americano".

Nova era

Outra importante lição para os Estados Unidos, segundo o presidente americano, é dialogar mais com outros países.

"Aprendemos a importância de trabalhar juntos com amigos e aliados, e é por isso que estamos iniciando uma nova era de diálogo no mundo", afirmou. Obama disse que, ao contrário do governo anterior de George W. Bush, pretende dialogar com o Irã e a Síria.

"Os Estados Unidos vão buscar um relacionamento sustentado, respeitando nossos princípios, com todos os países da região, incluindo o Irã e a Síria", declarou o presidente americano.

Dirigindo-se diretamente aos iraquianos, a maioria dos quais se opõe à presença militar americana no país, Obama disse que seu governo não está interessado no território ou nos recursos do Iraque, invadido pelas tropas americanas em 2003.

"Os Estados Unidos não têm interesse em seu território ou seus recursos", afirmou Obama. "Respeitamos sua soberania e os enormes sacrifícios que vocês fizeram pelo seu pais."

"Esperamos que o governo iraquiano assuma responsabilidade total pela segurança do país", acrescentou.


Durante seu pronunciamento, o presidente americano anunciou ainda o nome de Christopher Hill como novo embaixador americano para o Iraque, substituindo Ryan Crocker.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Chávez e o plebiscito autoritário

Muitos se perguntam: se Chávez é um ditador, porque então ele está continuamente fazendo plebiscitos? Consultar o povo não é uma forma de democracia? Portanto, a acusação de que Chávez é um ditador só pode ser feita de má vontade, por membros de uma elite que não deseja mudanças sociais na América Latina, certo?
Resposta: exatamente porque Chávez está continuamente fazendo referendos ele é um ditador.

Explica-se.
democracia não se confunde com ditadura da maioria. O regime democrático foi criado para estabelecer consensos mínimos na sociedade, promovendo um campo de diálogo possivel entre partes com opiniões diferentes. Ao mesmo tempo que busca um espaço de consenso, a democracia deve sempre estar aberta ao diferente, neste sentido, a opinião da minoria é fundamental num regime democrático.
Um exemplo extremo: pouco antes da II Guerra mundial, Hitler promoveu uma ampla votação na então independente Áustria, um plebiscito. A questão era: a Áustria deve ou não ser anexada à Alemanha nazista? Sob forte efeito da propagada nazista, altamente efetiva, mais de 90% da população austríaca disse sim. Momento contínuo, tropas alemãs entraram, com consentimento, na Áustria e começaram suas políticas de extermínio de judeus, comunistas e outros opositores ao nazismo. Pergunta: Hitler, por ter feito o plebiscito, é então um democrata? A resposta, por demais óbvia, é uma lição profunda do que é uma democracia: espaço de consenso no qual a maioria de fato deve ser ouvida, mas nunca, massacrar a minoria que discorda da opinião reinante.
Regimes autoritários ou que se querem autoritários, como o de Chávez, sempre buscam uma legitimação de suas posições políticas em votações, seja no Congresso, seja em plebiscitos (onde aliás a máquina de propaganda e de aliciamento de votos chavista, foi marcante). Mesmo em pleno regime militar brasileiro, o Congresso era aberto para "votar" no novo presidente....o indicado pelos militares. Isso não faz uma democracia. Respeito à minoria é condição fundamental para qualquer regime democrático, com ou sem plebiscito.(note que mais de 40% da população disse não a Chávez, o que é uma minoria insignificante). A contínua persistência de Chávez em mega-plebiscitos é indício claro de autoritaritarismo, por mais estranho que possa parecer. Presidentes eleitos democraticamente e que respeitam "as regras do jogo" saem ao final de seus mandatos, fazendo ou não seus sucessores. Neste sentido, nem mesmo os 85% de aprovação de Lula são um convite para ele ousar um terceiro mandato, ou ainda mais , uma reeleição ilimitada.


texto BBC-Brasil: Diante de uma multidão de simpatizantes, o presidente da Venezuela Hugo Chávez afirmou, na noite deste domingo, que a vitória no referendo abre caminho para a consolidação de uma revolução socialista no país.
"Hoje começa o terceiro ciclo histórico, de 2009 a 2019 (...). Abrimos a porta do futuro para continuar transitando a caminho da dignidade (...) e esse caminho não tem outro nome: é socialismo", afirmou Chávez ao dirigir-se a seus simpatizantes na varanda do Palácio de Governo. O local havia sido cercado por uma multidão vestida de vermelho, a cor do chavismo, antes mesmo do anúncio da vitória.
"Os que votaram pelo ‘Sim' votaram pelo socialismo, pela revolução e por Chávez", acrescentou o mandatário. Ele discursou acompanhado das filhas, netos e ministros, em um ato que foi transmitido por cadeia nacional de rádio e televisão.
Chávez, que estava eufórico e afônico, disse que o referendo foi uma grande vitória do povo e da revolução, e que os venezuelanos haviam escrito uma "página memorável na história" do país.
Segundo o primeiro boletim do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), com 94,2% das urnas apuradas, o "Sim" levou 54,36% dos votos, aprovando a emenda constitucional que coloca um fim ao limite para a reeleição aos cargos públicos.
A medida habilita o presidente venezuelano a candidatar-se a um terceiro mandato presidencial nas eleições de 2012, para as quais ele já se proclamou "pré-candidato".

Oposição

O presidente parabenizou também a seus opositores pela disputa, e disse que a vitória também era dos que votaram "não", opção que, de acordo com o CNE obteve 45,63% dos votos. A participação, uma das mais altas dos últimos pleitos, foi de 67,05% dos cidadãos com direito a voto.
O presidente venezuelano contou que o primeiro a parabenizá-lo foi o líder cubano Fidel Castro. "Felicidades a você e para seu povo por uma vitória que, por sua magnitude, é impossível de medir", disse Fidel, de acordo com Chávez.
Imediatamente após o discurso do presidente, os partidos de oposição reconheceram a vitória do governo, mas, porém, denunciaram que a opção do "Sim" levou vantagem devido ao uso da máquina do Estado durante a campanha eleitoral.
Omar Barboza, dirigente do partido Um Novo Tempo (centro-direita), disse que os opositores estão orgulhosos de terem alcançado mais de 5 milhões de votos e advertiu que a oposição "continuará na luta".
Thomas Guanipa, do partido Primeiro Justiça (direita) afirmou que nas eleições presidenciais de 2012, a oposição "alcançará uma mudança" no país.
A festa dos chavistas se estendeu durante toda a madrugada, com queima de fogos, caravanas e gritos de "Uh, ah! Chávez, não se vá".

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Aço e protecionismo nos EUA: a primeira medida.

A euforia com Obama durou pouco: pelo menos no tema comércio exterior. Aconteceu o que todos temiam que iria acontecer: em meio a uma grave crise econômica, que se aproxima de uma depressão, o presidente recém eleito tomou uma atitude bem ao gosto do Partido Democrata, ruim, mas até certo ponto previsível: iniciou medidas protecionistas nos EUA como essa analisada pelo texto abaixo com vistas a defender o emprego de americanos. Não tenha dúvida, outras ainda virão. Até onde essas medidas são válidas? Do ponto de vista político, elas são justificáveis, afinal trata-se de um presidente com altíssimo índice de aprovação, e ao mesmo tempo, de expectativa. Salvar empregos na combalida economia americana atende a interesses políticos imediatos. Mas do ponto de vista da racionalidade econômica, que nem sempre anda de mãos dadas com a razão política, é uma medida contrária aos próprios interesses americanos:
1-a História mostra que o protecionismo generalizado dos anos 30, pós crise, aumentou ainda mais a própria crise. Abrir mercados é ferramenta para aumentar renda, emprego e comércio, estimular competitividade e ao final, sair da crise. Fechá-los é andar para trás.
2-Um dos maiores problemas da economia americana é justamente o enorme déficit comercial, que deve ser diminuído com aumento de exportações americanas. Ora, se os EUA iniciam medidas protecionistas, seus parceiros comerciais, ou seja o mundo todo, podem retaliar, bloqueando uma das saídas possíveis para a crise.

Fiquem atentos a outras medidas que o presidente Obama possa tomar, muitas delas, como essa do aço, afetarão diretamente o Brasil. Mas não tenha dúvida: o protecionisto está aumentando nos EUA e isso não é bom, nem para eles, nem para nós.
Um abraço,
Prof. Henrique.


texto: BBC -Brasil: A União Européia e o Canadá alertaram nesta segunda-feira que uma cláusula do pacote de recuperação econômica proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pode levar a mais protecionismo por parte do país.
A cláusula em questão é conhecida como “Buy American” (compre produtos americanos, em tradução livre) e procura assegurar que apenas ferro, aço e manufaturados produzidos nos Estados Unidos sejam usados em projetos de construção contemplados pelo pacote. O embaixador da União Européia em Washington, John Bruton, criticou a medida e afirmou que ela mandaria um mau sinal para o mundo. “Se a primeira legislação importante que Obama assinar como presidente for em parte protecionista, isto não mandará uma boa mensagem”, disse Bruton ao jornal Financial Times. Em uma carta para os líderes do Senado dos Estados Unidos, o embaixador do Canadá em Washington, Michael Wilson, afirmou que, se a cláusula estiver no pacote aprovado, abrirá um precedente negativo com repercussões globais. “Os Estados Unidos perderão a sua autoridade moral de pressionar os outros (países) a não adotarem medidas protecionistas”, diz Wilson na carta, segundo a rede de TV canadense CBC. Já o ministro do Comércio Exterior canadense, Stockwell Day, afirmou que seu país espera ser excluído de qualquer medida do tipo, que, segundo ele, poderia levar a uma depressão global. “Estas medidas protecionistas, em uma hora de recessão, só pioram as coisas”, disse à rede CBC.“Isto poderia causar medidas de retaliação, e nós não queremos fazê-lo”, afirmou Day.
Brasil
Na semana passada, o governo brasileiro também criticou a cláusula de preferência por produtos americanos no projeto de pacote de Obama.
“Eu li que o presidente (dos Estados Unidos, Barack) Obama tomou uma decisão de que, nos novos investimentos deles, devem usar só aço da siderúrgica americana. Se isso for verdade, é um equívoco. O protecionismo nesse momento vai agravar a crise, não resolvê-la”, disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante entrevista no Fórum Social Mundial, em Belém, no Pará. A cláusula também recebe oposição de membros do Partido Republicano nos EUA.Por causa das críticas, a Casa Branca afirmou que está revisando esta parte do pacote, embora o vice-presidente, Joe Biden, tenha afirmado na semana passada que considera legítimo que parte da cláusula “Buy American” esteja no plano. Obama pediu nesta segunda-feira pressa ao Senado pela aprovação do pacote