É impressionante como os analistas, alguns sequer mereceriam este nome, estão perdidos em preconceitos tolos diante da situação atual do Egito. A maioria do que li nos últimos dias na imprensa brasileira repete o mesmo chavão: por serem islâmicos e árabes, os egpícios estariam condenados a terem duas alternativas, ou ditaduras laicas ou ditaduras teocráticas islâmicas. Ponto. O caráter democrático da rebelião anti-Mubárak é visto com desconfiança, quase hostilidade.E repete-se ad nauseam os "exemplos" de países islâmicos e árabes que são ditaduras e os atos de ódio ao diferente em certas sociedades teocráticas, como o Irã, como formas de reafirmar esse suposto "destino manifesto" muçulmano.
Grotesco, mas é essa a imprensa brasileira: desinformada, rude, preconceituosa.
Um olhar histórico faz bem. Foi o Islão que inventou a tolerância. Durante a Idade Média, enquanto a Igreja queimava mulheres com epilepsia chamando-as de bruxas, a medicina se desenvolvia nas cidades de Bagdá, Córdova na Espanha , então domínio islâmico ou na milenar Alexandria, que aliás tinha um bairro judeu e outro grego, convivendo sem muitos problemas com o povo islâmico e árabe.Os próprios judeus foram protegidos pelos 8 séculos de domínio islâmico na Península Ibérica, e adivinhe qual foi a primeira medida tomada pelos reis católicos Fernando e Isabel ao conquistarem em definitivo a Espanha ? A expulsão dos judeus de lá... Comércio e contato com outras culturas sempre fizeram parte da privilegiada região geográfica do Oriente Médio, ponto de encontro entre a Europa, os reinos então ricos da África subsaariana e o Oriente, Índia e China. Foram os árabes que mantiveram e traduziram os textos gregos, lendo Aristóteles, Platão e outros sem deturpá-los para serem "encaixados" numa visão religiosa. E foi no Islão que a mulher teve seus primeiros direitos preservados em textos sagrados e legislação comum, na mesma época em que na Idade Média eram abertamente segregadas.
Toda essa herança cultural de tolerância e diversidade está sim latente no mundo islâmico. E se hoje a maioria dos países árabes é formada por ditaduras, esquece-se de que são fruto, boa parte delas, da aliança com o Ocidente, que prefere o apoio a regimes autoritários desde que o petróleo continue a jorrar. OEgito pode se tornar um país teocrático? Sim, pode. Mas também pode se tornar democrático. Islamismo não é sinônimo de fanatismo, o que é evidente para quem estuda um pouco de História, mas não tão evidente assim para os "analistas" que parecem ter poderes mediúnicos para desejar "prever" o final da rebelião egípcia. Por isso, em se tratando de leituras apressadas na pobre imprensa brasileira, todo cuidado é pouco.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
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