segunda-feira, 3 de maio de 2010

Paraguai : failure state?

Um dos temas recorrentes no estudo de RI é a da falência dos Estados. Não no sentido econômico, do qual a Grécia é triste exemplo, mas no sentido estrutural. Estados que não mais podem ser chamados de tal : judiciário e legislativos corrompidos, executivo quase sempre autoritário e igualmente corrupto, estruturas policiais tomadas pela infiltração do crime organizado, economia sem regras básicas constituídas e sendo efeito e posteriormente causa multiplicadora, caos social acompanhado de soluções políticas extremistas.
Há versões menores deste apocalipse: um quase "failure state" quando o processo de destruição estatal é lento, por dentro, corroendo estruturas internas, quase sempre as essenciais, a saber, a justiça e a polícia, bases de qualquer estado moderno.
Pois bem, na América do Sul, os últimos acontecimentos no Paraguai permitem um olhar preocupado neste membro do Mercosul e vizinho próximo. É sabido a imensa leniência que o estado paraguaio tem com o crime. Todos sabemos que boa parte do contrabando que abastece nossos camelôs vem do Paraguai. Para lá vão nossos carros roubados, cargas roubadas e dinheiro das drogas. Agora, com atentados a um senador e um certo grupo de uma suposta guerrilha, a situação apenas "avançou" um pouco em direção a um perfeito failure state. Aqui, bem pertinho de nós.
Ao invés dos delírios iranianos de nossa política externa e da lamentável condecoração das esposas do Presidente e do Ministro de Relações Exteriores, situação vexaminosa que é um perfeito documento histórico de nosso tempo, toda nossa energia diplomática, e quiçá militar, deveria ser canalizada para ajudar o Paraguai a vencer, ou pelo menos controlar, seus demônios internos. O presidente Lugo, de esquerda, mas responsável nesse ponto, deu sinais claros de que não vai tolerar narco-guerrilhas em seu território, ao contrário de um Chávez que apoia abertamente as Farc. É um bom sinal de que o Paraguai está avançando politicamente. Mas ao Brasil é mais do que apenas um simples dever de pais amigo, é uma questão de sobrevivência fundamental, dar apoio amplo e irrestrito, incluindo militar, insisto, ao Paraguai. Se este pais colapsar, ainda mais do que já é, em parte por nossa culpa após a terrível guerra do século XIX vencida pelo Império, o Brasil será fortemente afetado em seus interesses econômicos lá e aqui e não tenha dúvida, no crime organizado daqui, já muito articulado internacionalmente. No fim de um governo que teve uma política externa delirante, o Paraguai pode ser a derradeira prova de fogo se ainda há vida inteligente no Itamaraty.

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