sexta-feira, 28 de agosto de 2009

De novo, as bases

De novo, outra reunião da Unasul. De novo, as bases.
Que na verdade não são bases americanas na Colômbia, mas uso de bases colombianas por soldados americanos. Diga-se de passagem, o alarde sobre elas é bastante grande, mas o alcance do acordo bilateral militar entre EUA e Colômbia muda pouco: já faz mais de 30 anos que os americanos treinam, vendem equipamentos, dão suporte logístico e usam bases militares dos colombianos. O problema é que agora, com a histeria chavista, esse acordo foi colocado sob os holofotes. Não há muito o que fazer, afinal um dos princípios da diplomacia brasileira há anos é o da não-ingerência em assuntos internos de outros países e um acordo bilateral é, por definição, um acordo interno. A Colômbia por sua vez e os EUA particularmente irão passar a imagem de um acordo normal, sem afetar possíveis soberanias de outros países;. De fato, não interessa a Colômbia nenhuma invasão territorial pelo território, mas o controle das Farc e da narco-guerrilha ( hoje em dia, a mesma coisa), embora tal controle significa possíveis violações de fronteira, afinal porosas, da floresta amazônica. Ficam duas impressões: 1. o Brasil caiu de bobo nesta história, pois um acordo que existe há 30 anos renovado só agora foi "lembrado" pela política externa brasileira, fazendo coro a um Chávez sempre em busca de um inimigo externo imaginário. 2.o Brasil fica numa posição meio tola de "mediador" entre as diatribes de Chávez e os interesses de Uribe, situação que não traz nenhum benefício ao Brasil, apenas desgaste.



O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa nesta sexta-feira, em Bariloche, da reunião da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) disposto a tentar “pacificar” a região após as disputas políticas trazidas à tona com o anúncio sobre o acordo militar entre Colômbia e Estados Unidos, afirmou à BBC Brasil uma fonte do governo brasileiro que acompanha as discussões.

O primeiro compromisso de Lula será um encontro com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e a expectativa é que o brasileiro tente acalmar as fortes críticas do líder venezuelano ao governo da Colômbia.

Segundo o diplomata ouvido pela BBC Brasil, Lula insistirá que a América do Sul é uma região “de paz” e que os assuntos militares devem ficar restritos ao conselho de defesa do grupo.

“Essa é uma discussão principalmente política. Nós já sabemos que são bases colombianas e que serão compartilhadas por militares dos dois países, mas com o comando da Colômbia”, disse.

“Sabemos também que estas ações conjuntas dos militares dos dois países serão limitadas ao território colombiano. E descartamos que o objetivo seja vigiar a Amazônia brasileira”, ressaltou.

EUA na Colômbia

Durante esta semana, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, pediu “garantias jurídicas” de que a maior presença americana na região se limitará ao espaço da Colômbia.

Após um encontro com autoridades colombianas em Bogotá, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, disse que o governo de Uribe daria estas “garantias jurídicas” sobre a limitação das bases.

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade San Andrés, Juan Gabriel Tokatlian, a presença de tropas americanas em sete bases colombianas poderia abrir espaço para a presença dos soldados nas regiões, especialmente na fronteira com o Brasil.

“As tropas estarão presentes em áreas sensíveis, como a Amazônia brasileira. Mas agora o importante é uma forte ação da diplomacia dos países (da Unasul) para se evitar ainda mais tensões na região andina”, disse.

Na quarta-feira, o governo colombiano registrou uma queixa formal na Organização dos Estados Americanos (OEA) contra as “ingerências” de Chávez em suas políticas.

“Mas é a Colômbia que está criando problemas para a região, e não a Venezuela”, disse a ex-vice-chanceler venezuelana, Maripili Hernández, às emissoras de televisão da Colômbia.

Ao mesmo tempo, o presidente boliviano, Evo Morales, contrário ao acordo militar, defendeu a realização de um referendo regional para que os eleitores da America do Sul opinem sobre o pacto Colômbia e Estados Unidos. Morales disse que apresentará a idéia na reunião desta sexta.

A expectativa, segundo um diplomata argentino, é de que na reunião da Unasul, prevista para durar pouco mais de três horas, os presidentes, acompanhados pelos ministros das Relações Exteriores e da Defesa, ouçam as palavras do presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, sobre o acordo, mas é provável que também comentem por pedido de Uribe, sobre o maior investimento em armamentos nos diferentes países da região.

“No caso do Brasil, é transferência de tecnologia (em relação aos submarinos franceses)”, disse o interlocutor brasileiro, antecipando o possível argumento do Brasil, no encontro.

Nos últimos tempos, segundo dados do Centro de Estudos Nova Maioria, de Buenos Aires, os países da América do Sul investiram 30% mais em armamentos em 2008 do que em 2007.

Renovação

“Não se trata de corrida armamentista. Mas principalmente de renovação dos velhos estoques”, disse à BBC Brasil o professor de relações internacionais, Jorge Battaglino, da Universidade Torquato di Tella.

O governo colombiano pediu que a reunião da Unasul seja transmitida ao vivo por diferentes emissoras de televisão. Mas no fim da noite de quinta-feira, não se sabia a decisão da presidente da Argentina, Cristina Kirchner.

O chanceler colombiano, Jaime Bermúdez, voltou a dizer, nesta quarta-feira, que a idéia não é pedir aval sobre o acordo durante a reunião da Unasul.

“O acordo já é um fato. É importante para a Colômbia e, ao mesmo tempo, achamos que deveríamos discutir, na região, o combate ao terrorismo e narcotráfico”, disse.

Nesta quinta-feira, em Buenos Aires, o sub-secretário do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado, Christopher McMuller, disse que Estados Unidos não pretendem instalar bases na região. E que o acordo com a Colômbia está baseado nos princípios das Nações Unidas e da OEA.

Cooperação

“É um acordo de cooperação militar. Não queremos e não temos planos de construir bases militares”, disse.

Esta será a segunda reunião da Unasul em menos de um mês. Na anterior, em Quito, no Equador, por sugestão dos presidentes Lula e Cristina foi marcada a desta sexta.

Uribe não esteve em Quito porque as relações entre Colômbia e Equador estão interrompidas desde o ano passado, quando o presidente do Equador, Rafael Correa, acusou a invasão de tropas colombianas em seu território.

No governo brasileiro, ainda se espera que a próxima reunião da Unasul conte com a presença de algum representante do governo do presidente Barak Obama.

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