Em minha opinião, só há uma única saída possível e honrosa para o caso Battisti: Lula extraditá-lo. O argumento de que seus crimes eram políticos é uma ofensa a democracia italiana, consolidada nos anos 70 quando ele por lá cometeu seus crimes, uma ofensa a atual União Européia, que julgou em todas as suas instâncias o caso e uma afronta, suprema ironia, aos setores da esquerda italiana, que condenam a luta armada há anos, preferindo a via democrática para sua atuação política. Para mim, o diagnóstico mais claro é do blog do Noblat: Lula quer fazer um afago a um PT que precisa, desesperadamente, de ícones de esquerda, já que passados 8 anos no governo e às vésperas de uma eleição geral, ele, PT, precisa recompor sua identidade de esquerda após anos de alianças com Sarney, Collor e afins. Só a psicanálise vai explicar a decisão de Lula, que como sabemos, salvo mudança de última hora, será a manutenção de Battisti no Brasil. Mais um erro de política externa da era Lula, explicado pela confusão de interesses entre partido, governo e Estado.
dois textos para sua opinião:
Blog do Marcos Guterman, Seção: América Latina, Europa 00:15:10.
O ministro da Justiça, Tarso Genro, sugeriu que Cesare Battisti – ativista político condenado pela Justiça italiana por homicídio – não deveria ser extraditado porque a Itália está tomada de crescente fascismo, e isso poderia agravar a perseguição ao esquerdista. Disse Tarso: “A Itália não é um país nazista nem fascista, mas vem sendo constatado um crescimento preocupante do fascismo em parte da população italiana. O fascismo vem ganhando força inclusive em setores do governo”.
Quanto à Itália, Tarso está certo. A atual coalizão de governo é integrada pelos chamados partidos “pós-fascistas”, como a Liga Norte e a Aliança Nacional, xenófobos e nacionalistas ao extremo. O próprio premiê Silvio Berlusconi já chegou a dizer que o ditador Benito Mussolini não tinha sido “tão mau assim”. Os resultados da última eleição parlamentar, em abril de 2008, mostraram um avanço considerável da direita. Talvez isso tudo explique por que o mundo político italiano nem reagiu às declarações de Tarso – e, afinal, a relação da Itália com seu passado fascista é suficientemente ambígua para que poucos italianos se ofendam com isso.
Por outro lado, a Itália é uma democracia e suas instituições funcionam razoavelmente bem, pelo menos tão bem quanto as do Brasil de Tarso Genro. Achar que o esquerdista Battisti possa ser vítima de perseguição política porque o governo é de direita, como fez Tarso, é, isso sim, ofensivo. Seria o mesmo que supor que Tarso, ex-militante comunista, deixou-se guiar por sua ideologia, e não por critérios jurídicos, ao entregar os boxeadores Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara à ditadura cubana, mesmo sabendo que os dois seriam tratados como dissidentes por Havana.
Assim, se não há razões para acreditar que Tarso agiu segundo suas convicções políticas, não é correto concluir, como fez o ministro, que o governo e a sociedade da Itália irão perseguir Battisti por causa de divergências ideológicas.
Blog do Noblat (...)Sempre se poderá dizer que Zelaya foi um pepino jogado no colo de Lula pelo presidente Hugo Chávez, da Venezuela.
Battist, não. Foi um pepino que o PT jogou no colo de Lula. E que ele acolheu satisfeito.
A psicanálise talvez ajude a explicar o comportamento do PT e de Lula.
O PT perdeu sua identidade como partido de esquerda. Ela lhe faz falta às vésperas de eleições. De sua parte, Lula deve reconhecer que maltratou demais o PT.
O governo jogou pesado e à sombra para arrancar do Supremo Tribunal Federal (STF) a bizarra sentença produzida na semana passada.
Battisti cometeu crimes comuns na Itália e não políticos como entende o governo brasileiro, segundo o STF.
Seu refúgio é ilegal, segundo o STF.
Ele deve, portanto, ser extraditado, segundo o STF.
Mas caberá a Lula a última palavra, segundo o STF.
Ora, para que serve um tribunal que terceiriza seu julgamento? Foi a maior patacoada da história do STF.
Battisti só poderá ficar no Brasil na condição de asilado político.
O governo terá de dizer que ele correrá perigo se for extraditado.
Na Itália, um país democrático, isso soará como uma afronta. E será, de fato, uma grave afronta.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
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