quarta-feira, 28 de julho de 2010

Política externa como questão de Estado ou de partido?

Os dois textos abaixo mostram uma evidência : a política externa no Brasil não é importante. Mas como, perguntariam os mais céticos ? Afinal, “nunca antes na história deste país” o Brasil foi tão comentado, tão bem recebido nas esferas internacionais. Nossa política externa não seria então um evidente sucesso ?
Acontece que boa parte da política externa brasileira virou política externa petista. Partidarizou-se o conceito de política de Estado, tornando-a mero apêndice de uma política de partido. Nem sequer tenta-se disfarçar o conteúdo ideológico esquerdista de nossa política externa. O resultado ? leia o texto 2 : quando realmente precisamos de um papel mediador importante, no caso das rusgas entre Colômbia e Venezuela, estamos “com o filme queimado” devido a aproximação excessiva e por vezes delirante entre o governo Lula e o coronel Chávez. Tivéssemos tido um papel um pouco mais racional e equilibrado e poderíamos exercer liderança, no sentido pleno, em nossa região, assumindo o papel de mediador neste conflito, papel hoje repudiado pela Colômbia devido ao adesismo lulista a opção Chávez.
O curioso é que o Brasil é visto como um país responsável na área econômica e vários interlocutores internacionais percebem o país como um ponto de equilíbrio na América do Sul. Então, como se dá esta mágica ? pela evidente separação entre política exterma econômica e política. Na área econômica, o Brasil é um queridinho do capital internacional, elevado a condição de um dos melhores entre os Brics. Enquanto isso, na área política expressamos um esquerdismo à lá anos 60, no melhor estilo anti-americano, um pouco tolo e inadequado, mas que se encaixa perfeitamente na fantasia messiânica de certos petistas, que afinal, como não podem ver uma política econômica de esquerda, refugiam-se numa política externa... de esquerda. Neste divã freudiano petista, perde o Brasil, que deixa de marcar pontos importantes na área diplomática local, deixando de participar de decisões fundamentais na América do Sul, enquanto aventura-se, meio sem jeito, em problemas que pouco nos dizem respeito, como o Irã.
Pelas declarações do candidato Serra, a política externa vai continuar atrelada a um mero apêndice de política interna. Pena. Ainda mais de dar lágrimas nos olhos, quando pensamos que justamente o Barão do Rio Branco pensou o Itamaraty como um elemento acima das picuinhas partidárias de curto prazo, uma projeção de visão de Estado. Parece que essa conquista nós perdemos .



Texto 1 :Política externa e eleições
27 de julho de 2010 | 14h39
Raquel Landim
O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, afirmou ontem que “até as árvores da Floresta Amazônica” sabem que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, dá abrigo às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Poucos dias atrás, seu companheiro de chapa, o candidato à vice-presidente Índio da Costa, foi duramente criticado por ligar o PT ao grupo terrorista.
Os comentários ganharam destaque nos meios de comunicação. Os analistas políticos explicam que Serra deixou de se apresentar como o pós-Lula e partiu para o ataque em busca de um eleitorado mais conservador. Por enquanto, esse ataque está concentrado na política externa. Mas porque o tucano elegeu a política externa como alvo?
Primeiro, porque é a face mais esquerdista do governo Lula. Ao manter a política macroeconômica – câmbio flexível e metas de inflação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a política externa para afagar as alas mais radicais do PT. Sob a forte influência do professor Marco Aurélio Garcia, Lula implementou uma política externa de “solidariedade” com os países pobres e tratou muito bem governantes que atacam os Estados Unidos, como Chávez e o boliviano Evo Morales.
Segundo, porque a política macroeconômica “conservadora” funcionou e hoje é difícil para a oposição atacar o desempenho da economia brasileira. O PIB deve crescer 7% este ano, a inflação se mantém controlada, e a taxa de desemprego está em um nível historicamente baixo. Os maiores problemas do País hoje são o aumento da dependência de capital externo e os gastos públicos – conceitos complicados para o eleitor médio.
Essa é provavelmente uma das primeiras vezes que a política externa aparece como tema central em uma campanha presidencial no Brasil. Mas será que a estratégia de atacar o companheirismo de Lula e Chávez vai se transformar em votos? Normalmente os brasileiros “não estão nem aí” para a política externa e sua principal preocupação é o salário no fim do mês. Lula escolheu essa área para agradar a esquerda do PT exatamente por sua pouca importância junto à população. Se a estratégia do PSDB funcionar, vai marcar uma mudança e tanto nas percepções do eleitor brasileiro

Texto 2 : Desconfiança de Bogotá limita papel mediador do Brasil
Apesar de boa relação com Uribe, elo especial da diplomacia brasileira com Chávez incomoda setores do governo colombiano
Roberto Simon, Ruth Costas - O Estado de S.Paulo
A desconfiança da Colômbia em relação ao governo Luiz Inácio Lula da Silva limita a capacidade de mediação do Brasil na atual crise entre Bogotá e Caracas. Segundo analistas e ex-diplomatas dos dois países ouvidos pelo "Estado", a diplomacia do presidente Lula é percebida como excessivamente simpática ao governo de Hugo Chávez, embora, formalmente, as relações com Bogotá também sejam boas.
"Não é que Lula seja visto como hostil, mas certamente não inspira confiança no governo colombiano, como, por exemplo, o Chile ou o Peru", opina o cientista político Alejo Vargas, da Universidade Nacional da Colômbia. "Para a Colômbia, e em especial para (o presidente Álvaro) Uribe (que deixa o cargo no dia 7), é importante que os governos vizinhos reconheçam as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) como terroristas - e isso o Brasil não fez."
No mês passado, uma fonte próxima ao Ministério da Defesa colombiano disse, sob condição de anonimato, que autoridades de seu país ficaram "chocadas" ao encontrar, no computador apreendido de um líder guerrilheiro, indícios de que integrantes das Farc teriam tido acesso à figuras ligadas ao governo Lula durante as gestões do caso Olivério Medina - ex-padre vinculado à guerrilha refugiado em território brasileiro. Em 2008, o Brasil condenou duramente o bombardeio colombiano contra um acampamento da guerrilha no Equador (a Colômbia ficou isolada na região). E, em 2009, o governo brasileiro criticou o acordo que permite aos Estados Unidos usar sete bases militares na Colômbia.
Na ocasião, Chávez congelou as relações comerciais com Bogotá, o que causou prejuízos de bilhões de dólares e levou ao corte de 300 mil empregos. Isso não impediu que Uribe fosse recebido calorosamente por Lula em São Paulo - quando a questão das bases dos EUA foi formalmente dada por encerrada na agenda bilateral.
O governo colombiano é pragmático: o Brasil representa boas oportunidades de negócio e o presidente Lula pode ser um aliado na medida em que a estabilidade da região também lhe interessa. A desconfiança, porém, não foi completamente superada, principalmente pela disparidade na forma como o brasileiro trata Uribe e Chávez, segundo analistas.
Unasul e OEA. "Não há dúvida de que a solidariedade ativa do Brasil com Chávez - pois não se trata só de simpatia - contamina a relação com Bogotá", diz Roberto Abdenur, ex-embaixador do governo Lula nos EUA.
O fato de o Brasil ter defendido que a crise fosse tratada no âmbito da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) - e não na Organização dos Estados Americanos (OEA) - também desagradaria a Bogotá, segundo Sérgio Amaral, ex-embaixador em Paris também na era Lula. Na OEA, a Colômbia tem a "proteção" dos EUA, e na Unasul só é apoiada por Peru e Chile.
O ex-chanceler brasileiro Luiz Felipe Lampreia, porém, ressalta que o incômodo causado pela relação de Lula com Chávez na Colômbia se concentra na esfera diplomática. As Forças Armadas dos dois países mantêm uma estreita cooperação. Fontes colombianas relatam uma relação especialmente fluida com o ministro da Defesa, Nelson Jobim.
Em 2009, Jobim disse que se rebeldes das Farc tentassem entrar no Brasil "seriam recebidos à bala". Não é difícil entender porque a ameaça agradou mais aos colombianos que a declaração de Lula na sexta-feira: "As Farc são problema da Colômbia e acho que deve ser tratado pela Colômbia", disse o presidente.

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