A União Europeia deve estar em algum "inferno astral"... se é que tais coisas existem... não bastasse a grave crise econômica iniciada nos EUA mas com enormes reverberações na Europa, agora a crise dos imigrantes. Tudo isso somado, dá-se uma descoordenação que mesmos os mais pessimistas sobre a Europa não imaginavam que poderia ocorrer.
Com o aumento da inflação, o Banco Central Europeu aumentou os juros. Até aí, tudo bem. Não fosse o óbvio: Portugal a beira do colapso precis de tudo, menos juros mais altos... isso sem falar nos outros "PIIGS", acrônimo nada elogioso para Portugal. Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, países com economias fragilizadas que precisariamde juros menores e mais estímulo ao consumo e não o contrário. Mas como usam uma moeda única, não dá para se ter duas taxas de juros na mesma moeda... conclusão: enquanto o aumento dos juros ajuda a Alemanha a esfriar sua inflação, "ajuda" esses países a congelar a sua economia, já em estado de coma. Moeda única? "não, obrigado", devem estar pensando espanhóis, portugueses, gregos...
A outra descoordenação, aliás grave, é a descrita no texto abaixo: enquanto a Itália é imundada com imigrantes africanos fugindo do caos nos países árabes, a França tenta em quase desespero fechar suas fronteiras. O problema é que, se estes imigrantes recebem vistos de turista na Itália, pelas leis da União Europeia deveriam poder entrar em qualquer país da Europa. E é isso que eles, imigrantes e italianos querem, ir para a França. Em larga medida pelas redes de solidariedade que existem na França, país já com muitos imigrantes árabes, em parte pela facilidade de língua, já que eles vêem de antigas colônias francesas como Tunísia e Argélia. Aos italianos, interessa dar esse visto para literalmente livrarem-se do "problema", jogando esses seres humanos, qual carga indesejável, aos franceses, que não aceitem recebê-los. Se a França simplesmente não os aceita, então ela pode não aceitar qualquer outro europeu, portanto, joga-se na lata do lixo um pressuposto básica da União Europeia, a livre circulação de pessoas.
Nada fácil de resolver. O bloco enfrenta hoje seus maiores desafios desde sua criação. Há vozes nada surdas que preferem a saída do bloco e a volta das moedas nacionais. Até há pouco tempo, isso soaria impossível. Hoje já é apenas, improvável.
texto BBC - Brasil: Um funcionário da Presidência francesa disse nesta sexta-feira em Paris que o país considera abandonar temporariamente o Tratado de Schengen, que permite a livre circulação de pessoas entre a maioria dos países da União Europeia (UE).
O gesto seria uma resposta à chegada de milhares de imigrantes que fogem da turbulência no norte da África. Muitos têm tentado entrar na França pela Itália, que lhes concedeu vistos temporários.
O funcionário do governo francês disse que deveria haver um mecanismo para suspender o acordo em resposta ao que descreveu como uma "falha sistêmica" na fronteira externa da UE.
"Nos parece que precisamos pensar sobre um mecanismo que nos permitiria, quando há uma falha sistêmica numa das fronteiras externas da UE, intervir com uma suspensão temporária pelo tempo que a ruptura durar", disse o funcionário, que não quis ser identificado, em encontro com jornalistas no Palácio Eliseu, a sede do executivo francês.
Segundo Hugh Schofield, correspondente da BBC em Paris, o fato de Paris sugerir a medida mostra o quão sensível a questão migratória se tornou na Europa, embora a proximidade das eleições presidenciais na França indique que o tema também faz parte da política doméstica.
Trem
Na semana passada, a França impediu a entrada no país de um trem com dezenas de imigrantes tunisianos que haviam partido da cidade italiana de Ventimiglia.
De acordo com a comissária europeia do Interior, Cecilia Malmström, as autoridades francesas citaram "razões de ordem pública" para justificar a medida.
Um porta-voz da Comissão Europeia afirmou também que a França não tem a obrigação de permitir a entrada de imigrantes com vistos de residência temporária concedidos pela Itália.
A Itália protestou contra a decisão francesa e afirmou que a medida viola as regras da União Europeia sobre a livre circulação no bloco.
Os italianos argumentam que as pessoas que vivem legalmente nos 25 países da União Europeia que assinaram o Tratado de Schengen (incluindo França e Itália) não precisam apresentar documentos de viagem às autoridades da região.
O ministro do Interior da França, Claude Gueant, afirmou que seu país respeita o Tratado de Schengen, mas acrescentou que futuros imigrantes tunisianos não poderão cruzar a fronteira se não demonstrarem que têm recursos suficientes para permanecer no país.
Vistos temporários
A Itália concedeu permissões temporárias a cerca de 26 mil imigrantes que entraram ilegalmente no país para escapar da violência que causou a queda do governo na Tunísia.
Muitos desses imigrantes afirmam que seu objetivo é chegar à França, onde têm parentes.
A recente crise política em diversos países no norte da África fez crescer a preocupação com a imigração ilegal na Itália e em outros países europeus.
No início do mês, os governos da França e da Itália concordaram em fazer um patrulhamento conjunto das fronteiras marítimas e terrestres para tentar barrar o fluxo de milhares de pessoas que chegam à Europa da Tunísia, do Egito e da Líbia.
sexta-feira, 22 de abril de 2011
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
O Egito e a imprensa brasileira
É impressionante como os analistas, alguns sequer mereceriam este nome, estão perdidos em preconceitos tolos diante da situação atual do Egito. A maioria do que li nos últimos dias na imprensa brasileira repete o mesmo chavão: por serem islâmicos e árabes, os egpícios estariam condenados a terem duas alternativas, ou ditaduras laicas ou ditaduras teocráticas islâmicas. Ponto. O caráter democrático da rebelião anti-Mubárak é visto com desconfiança, quase hostilidade.E repete-se ad nauseam os "exemplos" de países islâmicos e árabes que são ditaduras e os atos de ódio ao diferente em certas sociedades teocráticas, como o Irã, como formas de reafirmar esse suposto "destino manifesto" muçulmano.
Grotesco, mas é essa a imprensa brasileira: desinformada, rude, preconceituosa.
Um olhar histórico faz bem. Foi o Islão que inventou a tolerância. Durante a Idade Média, enquanto a Igreja queimava mulheres com epilepsia chamando-as de bruxas, a medicina se desenvolvia nas cidades de Bagdá, Córdova na Espanha , então domínio islâmico ou na milenar Alexandria, que aliás tinha um bairro judeu e outro grego, convivendo sem muitos problemas com o povo islâmico e árabe.Os próprios judeus foram protegidos pelos 8 séculos de domínio islâmico na Península Ibérica, e adivinhe qual foi a primeira medida tomada pelos reis católicos Fernando e Isabel ao conquistarem em definitivo a Espanha ? A expulsão dos judeus de lá... Comércio e contato com outras culturas sempre fizeram parte da privilegiada região geográfica do Oriente Médio, ponto de encontro entre a Europa, os reinos então ricos da África subsaariana e o Oriente, Índia e China. Foram os árabes que mantiveram e traduziram os textos gregos, lendo Aristóteles, Platão e outros sem deturpá-los para serem "encaixados" numa visão religiosa. E foi no Islão que a mulher teve seus primeiros direitos preservados em textos sagrados e legislação comum, na mesma época em que na Idade Média eram abertamente segregadas.
Toda essa herança cultural de tolerância e diversidade está sim latente no mundo islâmico. E se hoje a maioria dos países árabes é formada por ditaduras, esquece-se de que são fruto, boa parte delas, da aliança com o Ocidente, que prefere o apoio a regimes autoritários desde que o petróleo continue a jorrar. OEgito pode se tornar um país teocrático? Sim, pode. Mas também pode se tornar democrático. Islamismo não é sinônimo de fanatismo, o que é evidente para quem estuda um pouco de História, mas não tão evidente assim para os "analistas" que parecem ter poderes mediúnicos para desejar "prever" o final da rebelião egípcia. Por isso, em se tratando de leituras apressadas na pobre imprensa brasileira, todo cuidado é pouco.
Grotesco, mas é essa a imprensa brasileira: desinformada, rude, preconceituosa.
Um olhar histórico faz bem. Foi o Islão que inventou a tolerância. Durante a Idade Média, enquanto a Igreja queimava mulheres com epilepsia chamando-as de bruxas, a medicina se desenvolvia nas cidades de Bagdá, Córdova na Espanha , então domínio islâmico ou na milenar Alexandria, que aliás tinha um bairro judeu e outro grego, convivendo sem muitos problemas com o povo islâmico e árabe.Os próprios judeus foram protegidos pelos 8 séculos de domínio islâmico na Península Ibérica, e adivinhe qual foi a primeira medida tomada pelos reis católicos Fernando e Isabel ao conquistarem em definitivo a Espanha ? A expulsão dos judeus de lá... Comércio e contato com outras culturas sempre fizeram parte da privilegiada região geográfica do Oriente Médio, ponto de encontro entre a Europa, os reinos então ricos da África subsaariana e o Oriente, Índia e China. Foram os árabes que mantiveram e traduziram os textos gregos, lendo Aristóteles, Platão e outros sem deturpá-los para serem "encaixados" numa visão religiosa. E foi no Islão que a mulher teve seus primeiros direitos preservados em textos sagrados e legislação comum, na mesma época em que na Idade Média eram abertamente segregadas.
Toda essa herança cultural de tolerância e diversidade está sim latente no mundo islâmico. E se hoje a maioria dos países árabes é formada por ditaduras, esquece-se de que são fruto, boa parte delas, da aliança com o Ocidente, que prefere o apoio a regimes autoritários desde que o petróleo continue a jorrar. OEgito pode se tornar um país teocrático? Sim, pode. Mas também pode se tornar democrático. Islamismo não é sinônimo de fanatismo, o que é evidente para quem estuda um pouco de História, mas não tão evidente assim para os "analistas" que parecem ter poderes mediúnicos para desejar "prever" o final da rebelião egípcia. Por isso, em se tratando de leituras apressadas na pobre imprensa brasileira, todo cuidado é pouco.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Argentina e Dilma: começo promissor.
O que esperar da primeira viagem internacional de Dilma ?
Seu estilo é discreto, sem arroubos de messianismo tão típicos da Era Lula. Isso por sí só é uma enorme vantagem, já que basta uma rápida leitura pelos jornais estrangeiros para perceber que após 8 anos, o "estilo Lula" já era considerado mais do que apenas ultrapassado, mas incômodo: afinal, quem gostaria de receber um convidado em sua casa que ficasse palpitando sobre como arrumar seus móveis da sala? Guardada a comparação tola, era mais ou menos isso que Lula insistia em fazer: a cada viagem internacional, atos de arrogância, delírio e autoelogio, contínuos.
Mas há outra agenda, mais interessante: a dos Direitos Humanos. Embora Lula se vendesse ao exterior como exemplo único de operário que chegou ao poder. sua política externa tinha passivos graves, principalmente no apoio declarado a regimes semiautoritários como o Irã. Discretamente, mas bem marcadamente, esse não é um modelo a ser seguido por Dilma, que vai visitar, e note no trecho abaixo, por declarada vontade dela, Dilma, e não pelo Itamaraty ou por Marco Aurélio Garcia, a associação das Mães da Praça de Maio, uma das mais emblemáticas associações de vítimas da infame ditadura argentina dos anos 70/80. Bom início, pelo menos.
retirado do jornal El Clarín: La mandataria Dilma Rousseff, una ex militante de grupos guerrilleros que fue torturada durante el régimen militar brasileño (1964-1985), pidió que la reunión con las Madres de la Plaza de Mayo fuera incluida en su agenda oficial en Argentina, dijo el asesor de la Presidencia para Asuntos Internacionales, Marco Aurelio García. La presidenta “tiene una gran sensibilidad para los asuntos relativos a los derechos humanos”, aseguró García. Según el asesor, la decisión de la jefe del Estado de reunirse con las mujeres que se han convertido en símbolo de la lucha por la defensa de los derechos humanos en su país “valoriza mucho la lucha emblemática que esas señoras tienen en la historia política reciente de Argentina”.
Seu estilo é discreto, sem arroubos de messianismo tão típicos da Era Lula. Isso por sí só é uma enorme vantagem, já que basta uma rápida leitura pelos jornais estrangeiros para perceber que após 8 anos, o "estilo Lula" já era considerado mais do que apenas ultrapassado, mas incômodo: afinal, quem gostaria de receber um convidado em sua casa que ficasse palpitando sobre como arrumar seus móveis da sala? Guardada a comparação tola, era mais ou menos isso que Lula insistia em fazer: a cada viagem internacional, atos de arrogância, delírio e autoelogio, contínuos.
Mas há outra agenda, mais interessante: a dos Direitos Humanos. Embora Lula se vendesse ao exterior como exemplo único de operário que chegou ao poder. sua política externa tinha passivos graves, principalmente no apoio declarado a regimes semiautoritários como o Irã. Discretamente, mas bem marcadamente, esse não é um modelo a ser seguido por Dilma, que vai visitar, e note no trecho abaixo, por declarada vontade dela, Dilma, e não pelo Itamaraty ou por Marco Aurélio Garcia, a associação das Mães da Praça de Maio, uma das mais emblemáticas associações de vítimas da infame ditadura argentina dos anos 70/80. Bom início, pelo menos.
retirado do jornal El Clarín: La mandataria Dilma Rousseff, una ex militante de grupos guerrilleros que fue torturada durante el régimen militar brasileño (1964-1985), pidió que la reunión con las Madres de la Plaza de Mayo fuera incluida en su agenda oficial en Argentina, dijo el asesor de la Presidencia para Asuntos Internacionales, Marco Aurelio García. La presidenta “tiene una gran sensibilidad para los asuntos relativos a los derechos humanos”, aseguró García. Según el asesor, la decisión de la jefe del Estado de reunirse con las mujeres que se han convertido en símbolo de la lucha por la defensa de los derechos humanos en su país “valoriza mucho la lucha emblemática que esas señoras tienen en la historia política reciente de Argentina”.
quarta-feira, 28 de julho de 2010
Política externa como questão de Estado ou de partido?
Os dois textos abaixo mostram uma evidência : a política externa no Brasil não é importante. Mas como, perguntariam os mais céticos ? Afinal, “nunca antes na história deste país” o Brasil foi tão comentado, tão bem recebido nas esferas internacionais. Nossa política externa não seria então um evidente sucesso ?
Acontece que boa parte da política externa brasileira virou política externa petista. Partidarizou-se o conceito de política de Estado, tornando-a mero apêndice de uma política de partido. Nem sequer tenta-se disfarçar o conteúdo ideológico esquerdista de nossa política externa. O resultado ? leia o texto 2 : quando realmente precisamos de um papel mediador importante, no caso das rusgas entre Colômbia e Venezuela, estamos “com o filme queimado” devido a aproximação excessiva e por vezes delirante entre o governo Lula e o coronel Chávez. Tivéssemos tido um papel um pouco mais racional e equilibrado e poderíamos exercer liderança, no sentido pleno, em nossa região, assumindo o papel de mediador neste conflito, papel hoje repudiado pela Colômbia devido ao adesismo lulista a opção Chávez.
O curioso é que o Brasil é visto como um país responsável na área econômica e vários interlocutores internacionais percebem o país como um ponto de equilíbrio na América do Sul. Então, como se dá esta mágica ? pela evidente separação entre política exterma econômica e política. Na área econômica, o Brasil é um queridinho do capital internacional, elevado a condição de um dos melhores entre os Brics. Enquanto isso, na área política expressamos um esquerdismo à lá anos 60, no melhor estilo anti-americano, um pouco tolo e inadequado, mas que se encaixa perfeitamente na fantasia messiânica de certos petistas, que afinal, como não podem ver uma política econômica de esquerda, refugiam-se numa política externa... de esquerda. Neste divã freudiano petista, perde o Brasil, que deixa de marcar pontos importantes na área diplomática local, deixando de participar de decisões fundamentais na América do Sul, enquanto aventura-se, meio sem jeito, em problemas que pouco nos dizem respeito, como o Irã.
Pelas declarações do candidato Serra, a política externa vai continuar atrelada a um mero apêndice de política interna. Pena. Ainda mais de dar lágrimas nos olhos, quando pensamos que justamente o Barão do Rio Branco pensou o Itamaraty como um elemento acima das picuinhas partidárias de curto prazo, uma projeção de visão de Estado. Parece que essa conquista nós perdemos .
Texto 1 :Política externa e eleições
27 de julho de 2010 | 14h39
Raquel Landim
O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, afirmou ontem que “até as árvores da Floresta Amazônica” sabem que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, dá abrigo às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Poucos dias atrás, seu companheiro de chapa, o candidato à vice-presidente Índio da Costa, foi duramente criticado por ligar o PT ao grupo terrorista.
Os comentários ganharam destaque nos meios de comunicação. Os analistas políticos explicam que Serra deixou de se apresentar como o pós-Lula e partiu para o ataque em busca de um eleitorado mais conservador. Por enquanto, esse ataque está concentrado na política externa. Mas porque o tucano elegeu a política externa como alvo?
Primeiro, porque é a face mais esquerdista do governo Lula. Ao manter a política macroeconômica – câmbio flexível e metas de inflação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a política externa para afagar as alas mais radicais do PT. Sob a forte influência do professor Marco Aurélio Garcia, Lula implementou uma política externa de “solidariedade” com os países pobres e tratou muito bem governantes que atacam os Estados Unidos, como Chávez e o boliviano Evo Morales.
Segundo, porque a política macroeconômica “conservadora” funcionou e hoje é difícil para a oposição atacar o desempenho da economia brasileira. O PIB deve crescer 7% este ano, a inflação se mantém controlada, e a taxa de desemprego está em um nível historicamente baixo. Os maiores problemas do País hoje são o aumento da dependência de capital externo e os gastos públicos – conceitos complicados para o eleitor médio.
Essa é provavelmente uma das primeiras vezes que a política externa aparece como tema central em uma campanha presidencial no Brasil. Mas será que a estratégia de atacar o companheirismo de Lula e Chávez vai se transformar em votos? Normalmente os brasileiros “não estão nem aí” para a política externa e sua principal preocupação é o salário no fim do mês. Lula escolheu essa área para agradar a esquerda do PT exatamente por sua pouca importância junto à população. Se a estratégia do PSDB funcionar, vai marcar uma mudança e tanto nas percepções do eleitor brasileiro
Texto 2 : Desconfiança de Bogotá limita papel mediador do Brasil
Apesar de boa relação com Uribe, elo especial da diplomacia brasileira com Chávez incomoda setores do governo colombiano
Roberto Simon, Ruth Costas - O Estado de S.Paulo
A desconfiança da Colômbia em relação ao governo Luiz Inácio Lula da Silva limita a capacidade de mediação do Brasil na atual crise entre Bogotá e Caracas. Segundo analistas e ex-diplomatas dos dois países ouvidos pelo "Estado", a diplomacia do presidente Lula é percebida como excessivamente simpática ao governo de Hugo Chávez, embora, formalmente, as relações com Bogotá também sejam boas.
"Não é que Lula seja visto como hostil, mas certamente não inspira confiança no governo colombiano, como, por exemplo, o Chile ou o Peru", opina o cientista político Alejo Vargas, da Universidade Nacional da Colômbia. "Para a Colômbia, e em especial para (o presidente Álvaro) Uribe (que deixa o cargo no dia 7), é importante que os governos vizinhos reconheçam as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) como terroristas - e isso o Brasil não fez."
No mês passado, uma fonte próxima ao Ministério da Defesa colombiano disse, sob condição de anonimato, que autoridades de seu país ficaram "chocadas" ao encontrar, no computador apreendido de um líder guerrilheiro, indícios de que integrantes das Farc teriam tido acesso à figuras ligadas ao governo Lula durante as gestões do caso Olivério Medina - ex-padre vinculado à guerrilha refugiado em território brasileiro. Em 2008, o Brasil condenou duramente o bombardeio colombiano contra um acampamento da guerrilha no Equador (a Colômbia ficou isolada na região). E, em 2009, o governo brasileiro criticou o acordo que permite aos Estados Unidos usar sete bases militares na Colômbia.
Na ocasião, Chávez congelou as relações comerciais com Bogotá, o que causou prejuízos de bilhões de dólares e levou ao corte de 300 mil empregos. Isso não impediu que Uribe fosse recebido calorosamente por Lula em São Paulo - quando a questão das bases dos EUA foi formalmente dada por encerrada na agenda bilateral.
O governo colombiano é pragmático: o Brasil representa boas oportunidades de negócio e o presidente Lula pode ser um aliado na medida em que a estabilidade da região também lhe interessa. A desconfiança, porém, não foi completamente superada, principalmente pela disparidade na forma como o brasileiro trata Uribe e Chávez, segundo analistas.
Unasul e OEA. "Não há dúvida de que a solidariedade ativa do Brasil com Chávez - pois não se trata só de simpatia - contamina a relação com Bogotá", diz Roberto Abdenur, ex-embaixador do governo Lula nos EUA.
O fato de o Brasil ter defendido que a crise fosse tratada no âmbito da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) - e não na Organização dos Estados Americanos (OEA) - também desagradaria a Bogotá, segundo Sérgio Amaral, ex-embaixador em Paris também na era Lula. Na OEA, a Colômbia tem a "proteção" dos EUA, e na Unasul só é apoiada por Peru e Chile.
O ex-chanceler brasileiro Luiz Felipe Lampreia, porém, ressalta que o incômodo causado pela relação de Lula com Chávez na Colômbia se concentra na esfera diplomática. As Forças Armadas dos dois países mantêm uma estreita cooperação. Fontes colombianas relatam uma relação especialmente fluida com o ministro da Defesa, Nelson Jobim.
Em 2009, Jobim disse que se rebeldes das Farc tentassem entrar no Brasil "seriam recebidos à bala". Não é difícil entender porque a ameaça agradou mais aos colombianos que a declaração de Lula na sexta-feira: "As Farc são problema da Colômbia e acho que deve ser tratado pela Colômbia", disse o presidente.
Acontece que boa parte da política externa brasileira virou política externa petista. Partidarizou-se o conceito de política de Estado, tornando-a mero apêndice de uma política de partido. Nem sequer tenta-se disfarçar o conteúdo ideológico esquerdista de nossa política externa. O resultado ? leia o texto 2 : quando realmente precisamos de um papel mediador importante, no caso das rusgas entre Colômbia e Venezuela, estamos “com o filme queimado” devido a aproximação excessiva e por vezes delirante entre o governo Lula e o coronel Chávez. Tivéssemos tido um papel um pouco mais racional e equilibrado e poderíamos exercer liderança, no sentido pleno, em nossa região, assumindo o papel de mediador neste conflito, papel hoje repudiado pela Colômbia devido ao adesismo lulista a opção Chávez.
O curioso é que o Brasil é visto como um país responsável na área econômica e vários interlocutores internacionais percebem o país como um ponto de equilíbrio na América do Sul. Então, como se dá esta mágica ? pela evidente separação entre política exterma econômica e política. Na área econômica, o Brasil é um queridinho do capital internacional, elevado a condição de um dos melhores entre os Brics. Enquanto isso, na área política expressamos um esquerdismo à lá anos 60, no melhor estilo anti-americano, um pouco tolo e inadequado, mas que se encaixa perfeitamente na fantasia messiânica de certos petistas, que afinal, como não podem ver uma política econômica de esquerda, refugiam-se numa política externa... de esquerda. Neste divã freudiano petista, perde o Brasil, que deixa de marcar pontos importantes na área diplomática local, deixando de participar de decisões fundamentais na América do Sul, enquanto aventura-se, meio sem jeito, em problemas que pouco nos dizem respeito, como o Irã.
Pelas declarações do candidato Serra, a política externa vai continuar atrelada a um mero apêndice de política interna. Pena. Ainda mais de dar lágrimas nos olhos, quando pensamos que justamente o Barão do Rio Branco pensou o Itamaraty como um elemento acima das picuinhas partidárias de curto prazo, uma projeção de visão de Estado. Parece que essa conquista nós perdemos .
Texto 1 :Política externa e eleições
27 de julho de 2010 | 14h39
Raquel Landim
O candidato do PSDB à Presidência, José Serra, afirmou ontem que “até as árvores da Floresta Amazônica” sabem que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, dá abrigo às Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). Poucos dias atrás, seu companheiro de chapa, o candidato à vice-presidente Índio da Costa, foi duramente criticado por ligar o PT ao grupo terrorista.
Os comentários ganharam destaque nos meios de comunicação. Os analistas políticos explicam que Serra deixou de se apresentar como o pós-Lula e partiu para o ataque em busca de um eleitorado mais conservador. Por enquanto, esse ataque está concentrado na política externa. Mas porque o tucano elegeu a política externa como alvo?
Primeiro, porque é a face mais esquerdista do governo Lula. Ao manter a política macroeconômica – câmbio flexível e metas de inflação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou a política externa para afagar as alas mais radicais do PT. Sob a forte influência do professor Marco Aurélio Garcia, Lula implementou uma política externa de “solidariedade” com os países pobres e tratou muito bem governantes que atacam os Estados Unidos, como Chávez e o boliviano Evo Morales.
Segundo, porque a política macroeconômica “conservadora” funcionou e hoje é difícil para a oposição atacar o desempenho da economia brasileira. O PIB deve crescer 7% este ano, a inflação se mantém controlada, e a taxa de desemprego está em um nível historicamente baixo. Os maiores problemas do País hoje são o aumento da dependência de capital externo e os gastos públicos – conceitos complicados para o eleitor médio.
Essa é provavelmente uma das primeiras vezes que a política externa aparece como tema central em uma campanha presidencial no Brasil. Mas será que a estratégia de atacar o companheirismo de Lula e Chávez vai se transformar em votos? Normalmente os brasileiros “não estão nem aí” para a política externa e sua principal preocupação é o salário no fim do mês. Lula escolheu essa área para agradar a esquerda do PT exatamente por sua pouca importância junto à população. Se a estratégia do PSDB funcionar, vai marcar uma mudança e tanto nas percepções do eleitor brasileiro
Texto 2 : Desconfiança de Bogotá limita papel mediador do Brasil
Apesar de boa relação com Uribe, elo especial da diplomacia brasileira com Chávez incomoda setores do governo colombiano
Roberto Simon, Ruth Costas - O Estado de S.Paulo
A desconfiança da Colômbia em relação ao governo Luiz Inácio Lula da Silva limita a capacidade de mediação do Brasil na atual crise entre Bogotá e Caracas. Segundo analistas e ex-diplomatas dos dois países ouvidos pelo "Estado", a diplomacia do presidente Lula é percebida como excessivamente simpática ao governo de Hugo Chávez, embora, formalmente, as relações com Bogotá também sejam boas.
"Não é que Lula seja visto como hostil, mas certamente não inspira confiança no governo colombiano, como, por exemplo, o Chile ou o Peru", opina o cientista político Alejo Vargas, da Universidade Nacional da Colômbia. "Para a Colômbia, e em especial para (o presidente Álvaro) Uribe (que deixa o cargo no dia 7), é importante que os governos vizinhos reconheçam as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) como terroristas - e isso o Brasil não fez."
No mês passado, uma fonte próxima ao Ministério da Defesa colombiano disse, sob condição de anonimato, que autoridades de seu país ficaram "chocadas" ao encontrar, no computador apreendido de um líder guerrilheiro, indícios de que integrantes das Farc teriam tido acesso à figuras ligadas ao governo Lula durante as gestões do caso Olivério Medina - ex-padre vinculado à guerrilha refugiado em território brasileiro. Em 2008, o Brasil condenou duramente o bombardeio colombiano contra um acampamento da guerrilha no Equador (a Colômbia ficou isolada na região). E, em 2009, o governo brasileiro criticou o acordo que permite aos Estados Unidos usar sete bases militares na Colômbia.
Na ocasião, Chávez congelou as relações comerciais com Bogotá, o que causou prejuízos de bilhões de dólares e levou ao corte de 300 mil empregos. Isso não impediu que Uribe fosse recebido calorosamente por Lula em São Paulo - quando a questão das bases dos EUA foi formalmente dada por encerrada na agenda bilateral.
O governo colombiano é pragmático: o Brasil representa boas oportunidades de negócio e o presidente Lula pode ser um aliado na medida em que a estabilidade da região também lhe interessa. A desconfiança, porém, não foi completamente superada, principalmente pela disparidade na forma como o brasileiro trata Uribe e Chávez, segundo analistas.
Unasul e OEA. "Não há dúvida de que a solidariedade ativa do Brasil com Chávez - pois não se trata só de simpatia - contamina a relação com Bogotá", diz Roberto Abdenur, ex-embaixador do governo Lula nos EUA.
O fato de o Brasil ter defendido que a crise fosse tratada no âmbito da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) - e não na Organização dos Estados Americanos (OEA) - também desagradaria a Bogotá, segundo Sérgio Amaral, ex-embaixador em Paris também na era Lula. Na OEA, a Colômbia tem a "proteção" dos EUA, e na Unasul só é apoiada por Peru e Chile.
O ex-chanceler brasileiro Luiz Felipe Lampreia, porém, ressalta que o incômodo causado pela relação de Lula com Chávez na Colômbia se concentra na esfera diplomática. As Forças Armadas dos dois países mantêm uma estreita cooperação. Fontes colombianas relatam uma relação especialmente fluida com o ministro da Defesa, Nelson Jobim.
Em 2009, Jobim disse que se rebeldes das Farc tentassem entrar no Brasil "seriam recebidos à bala". Não é difícil entender porque a ameaça agradou mais aos colombianos que a declaração de Lula na sexta-feira: "As Farc são problema da Colômbia e acho que deve ser tratado pela Colômbia", disse o presidente.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Tratado de Tordesilhas
Portugal e Espanha são países que têm laços históricos e culturais profundos. Ambos têm também problemas semelhantes, comoseus déficits, embora em escala diferente, já que a Espanha é uma economia bem maior que Portugal. Mas parece que um pedaço do passado está rondando a relação entre os dois. E curiosamente, este “passado” envolve o Brasil.
A Vivo, empresa de telefonia celular que foi herdeira da antiga Telesp, é hoje um empresa disputada arduamente entre seus dois controladores, a Telefonica, da Espanha e a Portugal Telecom. A empresa espanhola já manifestou em várias ocasiões a intenção de comprar a totalidade da participação portuguesa na Vivo. Porém os portugueses não querem. Afinal, sabem que o mercado brasileiros de celulares é imenso e ainda tem potencial enorme a ser explorado, principalmente agregando valor aos serviços, à medida que vão ficando mais populares os smartphones por aqui, que são muito mais do que apenas celulares. Como os portugueses não têm “bala na agulha” pra partir para compras em outros mercados, manter suas posições no Brasil é fundamental para manter a própria empresa PT, já que ela mesma poderia ser facilmente engolida por outra operadora europeia, até mesmo a Telefonica, dado o tamanho pequeno do mercado portugues. Por outro lado, comprar na totalidade a Vivo pode ser altamente estratégico para a Telefonica, que poderia unir com mais vigor suas operações de telefonia fixa, móvel e banda larga, incluindo aí a sua operação ainda incipiente de tv por assinatura. Se ela tivesse todo o controle da Viv, poderia gerar vários serviços integrados, aproveitando a popularização dos smartphones. Inicialmente, as conversas eram até amigáveis, mas agora a coisa descanbou para a tentativa de compra hostil, com a empresa espanhola oferencendo rios de dinheiro aos acionistas minoritários da Vivo e da própria PT. Agora para piorar, entra o governo... A PT era uma empresa estatal que foi privatizada, e na Europa os governos têm direito a “golden share”, uma ação preferencial que pode barrar cetos negócios, quando de acordo com o governo, tais negócios forem contra o interesse português. E o governo português hoje defende seus interesses na PT e portanto na Vivo com teimosia latina, irritando a Telefonica, e ao mesmo tempo, o governo espanhol, ele também com golden share na Telefonica.
No passado, Espanha e Portugal lutaram em guerras para controlar o Brasil. Passados 200 anos da époc colonial, as coisas não mudaram muito na Peninsula Ibérica.
Textos do jornal O Estado de SP
LISBOA - O governo português disse nesta sexta-feira ( 16 de julho) que continuará contra a oferta da Telefónica pela participação da Portugal Telecom na Vivo, caso não o grupo espanhol não a modifique, afirmou Pedro da Silva Pereira, presidente do conselho de ministros de Portugal.
"(O governo) pronunciou-se contra essa proposta e, se essa proposta não se alterar, naturalmente que a posição do governo não poderá ser diferente daquela que já foi manifestada", disse Pereira a jornalistas, após reunião do conselho de ministros.
Segundo ele, "o melhor que temos a fazer é aguardar o desenvolvimento deste processo", em referência a negociações entre a Portugal Telecom e a Telefónica.
A oferta de 7,15 bilhões de euros da Telefónica pela fatia que o grupo português tem na Vivo expira nesta sexta-feira.
MADRI - O conselho de diretores da Portugal Telecom (PT) faz hoje (16 de julho de 2010) uma reunião para decidir se aceita ou não a oferta da espanhola Telefónica pela fatia que a companhia portuguesa possui na Vivo. O encontro vai começar na tarde de hoje (de Brasília), segundo uma pessoa próxima à situação. "Provavelmente não haverá um comunicado do conselho sobre a decisão logo após a reunião", disse a fonte.
Ontem o conselho da PT se reuniu para discutir a oferta de 7,15 bilhões de euros da Telefónica por sua fatia na Brasilcel, uma joint venture controlada pelas duas companhias. A Brasilcel, por sua vez, detém 60% de participação na Vivo. A reunião não resultou em uma decisão sobre o assunto, por isso o novo encontro foi marcado para hoje. A Telefónica também marcou uma reunião de diretores para a hoje, dia em que expira o prazo dado para que a PT aceite a oferta. As informações são da Dow Jones.
A Vivo, empresa de telefonia celular que foi herdeira da antiga Telesp, é hoje um empresa disputada arduamente entre seus dois controladores, a Telefonica, da Espanha e a Portugal Telecom. A empresa espanhola já manifestou em várias ocasiões a intenção de comprar a totalidade da participação portuguesa na Vivo. Porém os portugueses não querem. Afinal, sabem que o mercado brasileiros de celulares é imenso e ainda tem potencial enorme a ser explorado, principalmente agregando valor aos serviços, à medida que vão ficando mais populares os smartphones por aqui, que são muito mais do que apenas celulares. Como os portugueses não têm “bala na agulha” pra partir para compras em outros mercados, manter suas posições no Brasil é fundamental para manter a própria empresa PT, já que ela mesma poderia ser facilmente engolida por outra operadora europeia, até mesmo a Telefonica, dado o tamanho pequeno do mercado portugues. Por outro lado, comprar na totalidade a Vivo pode ser altamente estratégico para a Telefonica, que poderia unir com mais vigor suas operações de telefonia fixa, móvel e banda larga, incluindo aí a sua operação ainda incipiente de tv por assinatura. Se ela tivesse todo o controle da Viv, poderia gerar vários serviços integrados, aproveitando a popularização dos smartphones. Inicialmente, as conversas eram até amigáveis, mas agora a coisa descanbou para a tentativa de compra hostil, com a empresa espanhola oferencendo rios de dinheiro aos acionistas minoritários da Vivo e da própria PT. Agora para piorar, entra o governo... A PT era uma empresa estatal que foi privatizada, e na Europa os governos têm direito a “golden share”, uma ação preferencial que pode barrar cetos negócios, quando de acordo com o governo, tais negócios forem contra o interesse português. E o governo português hoje defende seus interesses na PT e portanto na Vivo com teimosia latina, irritando a Telefonica, e ao mesmo tempo, o governo espanhol, ele também com golden share na Telefonica.
No passado, Espanha e Portugal lutaram em guerras para controlar o Brasil. Passados 200 anos da époc colonial, as coisas não mudaram muito na Peninsula Ibérica.
Textos do jornal O Estado de SP
LISBOA - O governo português disse nesta sexta-feira ( 16 de julho) que continuará contra a oferta da Telefónica pela participação da Portugal Telecom na Vivo, caso não o grupo espanhol não a modifique, afirmou Pedro da Silva Pereira, presidente do conselho de ministros de Portugal.
"(O governo) pronunciou-se contra essa proposta e, se essa proposta não se alterar, naturalmente que a posição do governo não poderá ser diferente daquela que já foi manifestada", disse Pereira a jornalistas, após reunião do conselho de ministros.
Segundo ele, "o melhor que temos a fazer é aguardar o desenvolvimento deste processo", em referência a negociações entre a Portugal Telecom e a Telefónica.
A oferta de 7,15 bilhões de euros da Telefónica pela fatia que o grupo português tem na Vivo expira nesta sexta-feira.
MADRI - O conselho de diretores da Portugal Telecom (PT) faz hoje (16 de julho de 2010) uma reunião para decidir se aceita ou não a oferta da espanhola Telefónica pela fatia que a companhia portuguesa possui na Vivo. O encontro vai começar na tarde de hoje (de Brasília), segundo uma pessoa próxima à situação. "Provavelmente não haverá um comunicado do conselho sobre a decisão logo após a reunião", disse a fonte.
Ontem o conselho da PT se reuniu para discutir a oferta de 7,15 bilhões de euros da Telefónica por sua fatia na Brasilcel, uma joint venture controlada pelas duas companhias. A Brasilcel, por sua vez, detém 60% de participação na Vivo. A reunião não resultou em uma decisão sobre o assunto, por isso o novo encontro foi marcado para hoje. A Telefónica também marcou uma reunião de diretores para a hoje, dia em que expira o prazo dado para que a PT aceite a oferta. As informações são da Dow Jones.
quarta-feira, 26 de maio de 2010
Um país que não existe, existindo.
A península coreana está em guerra : e isso faz quase 60 anos.
Desde os anos 50, quando estourou a guerra na então unida Coreia, o atual estado geopolítico da península permanece intacto : ao norte, um regime estalinista, governado de forma totalitária pelo filho do criador do regime, hoje chamado de "pequeno timoneiro", Kim-Jon-Ill. E ao sul um regime democrático ( embora recente, já que até os anos 90 a Coreia do Sul também eram uma ditadura), porém de inegável sucesso econômico. A fronteira entre os dois países é a zona mais militarizada do mundo e os dois ainda estão em guerra, já que apenas um armistício, não um tratado de paz, foi assinado.
Há chances reais de uma guerra ?
Do ponto de vista da Coreia do Sul, a chance é zero. Sua economia seria fortemente afetada e mesmo as ultrapassadas armas da vizinha comunista fariam a capital Seul, há poucas centenas de km da fronteira, ser dizimada. Isso explica o fato de que teve um navio militar atacado por um torpedo do Norte e mesmo assim, não ter declarado guerra. Por muito menos, um Chávez por exemplo, iria à guerra contra a Colômbia.
Mas e o Norte ? Pois é... trata-se de um regime fechado ao extremo, nem sequer sabemos se o ditador ainda é vivo ou não, já que só há um meio de comunicação, o oficial, eivado de discusos ensandecidos ao Ocidente e aos porcos imperialistas... Entrar no país é mais difícil que chegar a Marte e a rigor, só a China comunista tem relações diplomáticas consideradas normais com a Coreia do Norte. O interessante é que o Brasil joga com esse país na Copa. Quem sabe um Lula messiânico não quer também aproveitar a deixa e tomar a frente do processo de paz por lá...
Verdade é que ninguém ou quase ninguém sabe o que se passa na Coreia do Norte, muito menos na mente doentia dos dirigentes daquele momunento ao estalinismo em pleno século XXI. A guerra pode até ser opção, embora pouco provável num país que já colapsou faz tempo, mas permanece firme e forte defendendo um regime que nem eles mesmo sabem o que significa. Arroz e energia elétrica faltam na Coreia do Norte, mas não soldados, já que a sociedade é ultra-militarizada. Dá medo, mas ao mesmo tempo mostra de forma cabal o fracasso do comunismo estalinista, ainda curiosamente defendido por boa parte da esquerda brasileira, já que Cuba, versão mais light e tropical da Coreia do Norte, ainda permanece no imaginário esquerdista como o summum bonum da civilização. Quando o regime castrista vai ruir é fácil saber : quando os EUA acabarem com o tosco embargo econômico e quando os irmãos Castro morrerem. Mas e a Coreia do Norte ? Quando Kim Jon Ill morrer ? E se ele já estiver morto ? E eles têm ou não uma bomba nuclear ?
Sobre a Coreia do Norte, a única certeza é quem ganhará a partida contra o Brasil na Copa. O resto, é apenas aposta. Mesmo o placar....
Tensão entre Coreias pode levar a conflito de grande proporção, diz especialista
MARIA CAROLINA ABE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
A situação é cada vez mais tensa entre as Coreias. Após uma investigação internacional, a Coreia do Sul acusou formalmente a Coreia do Norte, na quinta-feira (20), de atacar com um torpedo um navio de sua Marinha em março.
O afundamento da corveta de 1.200 toneladas, perto da fronteira marítima com a Coreia do Norte, provocou a morte de 46 dos 104 marinheiros sul-coreanos. Foi o incidente mais grave ocorrido na disputada fronteira marítima do mar Amarelo entre as duas Coreias desde o cessar-fogo entre as duas nações, em 1953.
O presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, pressiona a comunidade internacional por novas sanções contra a Coreia do Norte. O regime de Kim Jong-il, por sua vez, respondeu com o rompimento das relações com Seul.
Diferentemente da guerra das Coreias dos anos 1950, um conflito hoje teria proporções muito maiores, até porque envolveria as duas grandes potências mundiais --EUA e China--, na opinião de Heni Ozi Cukier, professor de Relações Internacionais da ESPM e especialista em resolução de conflitos internacionais.
Para o analista, o risco de ocorrer uma guerra na Península Coreana não é alto, mas há uma chance e isso exige cautela. Afinal, trata-se de uma zona altamente militarizada e qualquer deslize --seja da Coreia do Sul, que demonstra não querer uma guerra, seja da Coreia do Norte, "peão político no xadrez da China"-- poderia gerar um conflito de escalada muito rápida, afirma Cukier, que já trabalhou no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) e na OEA (Organização dos Estados Americanos).
Leia a íntegra da entrevista que Cukier deu à Folha por telefone.
Folha - Oficialmente, a Coreia do Sul e a Coreia ainda estão em guerra, porque ambas assinaram apenas um armistício em 1953. O que isso representa, simbolicamente, no contexto atual?
Heni Ozi Cukier - Isso simboliza o alto nível de mobilização militar que existe entre os dois países. É a zona mais militarizada do mundo, pode-se dizer. Isso cria uma situação muito frágil, muito tensa, em que qualquer deslize pode levar a uma guerra de proporções enormes. Um disparo errado numa situação de mobilização nesse nível automaticamente leva a uma escalada da violência muito rápida, diferentemente de outros conflitos, onde uma ação demora a ter uma reação e em que há tempo para se dialogar.
Folha - Nesse cenário, se considerarmos o ataque da Coreia do Norte ao navio sul-coreano, isso poderia ser visto como um deslize ou um ataque intencional?
Cukier - Primeiro, eu diria que o ataque existiu e foi cometido pela Coreia do Norte, sem dúvidas. Foram levantadas provas contundentes e houve muita cautela dos sul-coreanos para chegar a essa conclusão. Não responder ao ataque coloca-os numa situação difícil, e responder seria atacar novamente. Isso levaria a uma guerra, o que eles demonstraram claramente que não querem. Seul está há 40 quilômetros dessa fronteira altamente militarizada, seria um alvo fácil, e ambas as Coreias seriam destruídas.
Foi um ataque intencional aparentemente. Agora, a Coreia do Norte está levantando possibilidades para explicar isso --caso seja forçada a tomar uma posição. Está seguindo a linha de culpar um general, e um encaminhamento seria exonerar essa pessoa. Se tiver que assumir a autoria desse ato, vai fazer isso culpando alguém, dizendo que não foi o Estado. Seria a saída política do impasse.
Folha - O senhor acredita que ambas as Coreias estão dispostas a buscar uma solução alternativa ao confronto?
Cukier - A atitude da Coreia do Sul demonstra isso. Foi um ataque de proporções fora do padrão desse armistício, é o ataque mais violento, então a sociedade sul-coreana demanda uma resposta. A Coreia do Sul imediatamente veio a público, criou um grupo de investigações internacionais, e pediu que houvesse punição da comunidade internacional ao ataque da Coreia do Norte. Também indicou que cortaria laços comerciais e de ajuda financeira. Todas as posturas foram no campo de não uso da força, mas sim pressão diplomática e econômica.
As atitudes da Coreia do Norte não levam a crer que o país não queira a guerra: está sempre com ações provocativas, atitudes belicosas, declarações agressivas, buscando aumentar seu poderio bélico, construindo armas atômicas. No fundo, a guerra pode ser perigosa para o regime da Coreia do Norte, pode encerrar o regime de Kim Jong-il, mas essa mobilização do pré-guerra também ajuda a dar força para ele, pois é um país que tem extremos problemas internos. Ele mantém a ordem e o pulso firme no comando do país baseado na ameaça do inimigo externo, que serve para unificar o país em torno dele e minimizar os problemas internos causados com sua gestão.
Folha - E a comunidade internacional também demonstra querer evitar o confronto, não?
Cukier - Sim, porque ninguém quer se envolver em mais uma guerra. Os americanos já estão envolvidos em duas guerras e têm um problema seríssimo com o Irã. Então, outra frente de batalha não seria do interesse deles. Até porque, invariavelmente, envolveria a China. Seria um conflito de proporções globais extremas.
Folha - A China provavelmente se alinharia à Coreia do Norte?
Cukier - Provavelmente. Foi isso que aconteceu na guerra da Coreia [1950-53], quando os americanos entraram ao lado dos sul-coreanos e foram avançando e, quando chegaram muito próximo de conquistar o território, a China entrou na guerra e massacrou as forças americanas sob a bandeira da ONU até parar no meio do caminho de novo. Não é necessário e óbvio que a China entraria em um conflito agora, não é mais uma guerra ideológica entre o capitalismo e o comunismo, mas é difícil de a China não se envolver. A China se preocupa que o governo norte-coreano não caia, porque ela teme que os americanos vão unificar as Coreias e eles terão a presença americana na sua fronteira, sem falar nos problemas econômicos e de refugiados.
Folha - No caso de uma guerra hoje entre as Coreias, como ela seria, comparada à dos anos 1950?
Cukier - Seria um conflito com proporções muito maiores, particularmente se as duas potências se envolvessem --não acredito que de forma direta, mas indireta. Quem perderia mais seriam os coreanos, porque os dois territórios seriam completamente destruídos. E teria repercussões no mundo todo. A gente não consegue medir até que ponto e de que maneira a China se envolveria. Dependeria de como essa guerra fosse eclodir, ou o que causaria a guerra --um ataque da Coreia do Sul provavelmente levaria à entrada dos chineses.
Folha - Considerando que já há sanções em vigor contra a Coreia do Norte, como novas sanções afetariam o país?
Cukier - Em todos os conflitos do mundo, as sanções têm um resultado muito pequeno na mudança do comportamento dos regimes. O mais sacrificado é o povo mesmo, e isso acaba fortalecendo os regimes, porque eles usam isso como arma política dizendo :"vejam o que os outros do mundo estão fazendo conosco, com o povo norte-coreano". Já temos sanções há tanto tempo? O que mudou? Nada. É mais uma questão de legitimidade, de status, de estabelecer um culpado. O que a Coreia do Sul está tentando com isso é estabelecer um status político, mostrando: "vocês estão vendo, quero um reconhecimento cabal da comunidade internacional, por meio das sanções, de quem realmente está cometendo a agressão aqui e como eu estou me comportando". Para ficar muito claro seu direito de legítima defesa futuramente. Mas as sanções não resolvem; a solução é a mudança de regime.
Folha - Mas isso exigindo intervenção internacional?
Cukier - Isso teria de acontecer naturalmente, com a morte dele [Kim Jong-il], uma ruptura. Mas a China teria de deixar isso acontecer, e ela não deixa, porque teme qual seria o resultado dessa ruptura em termos de refugiados e questões econômicas. Além disso, Pequim perderia esse "para-choque" entre seu território e a presença americana na Coreia do Sul. Em terceiro lugar, a China usa a Coreia do Norte como um peão político para seu xadrez regional e global. A Coreia do Norte cumpre o papel de causar problemas que a China não pode causar. Ou, quando a Coreia do Norte causa um problema, a China se mostra como quem pode trazer a solução.
Desde os anos 50, quando estourou a guerra na então unida Coreia, o atual estado geopolítico da península permanece intacto : ao norte, um regime estalinista, governado de forma totalitária pelo filho do criador do regime, hoje chamado de "pequeno timoneiro", Kim-Jon-Ill. E ao sul um regime democrático ( embora recente, já que até os anos 90 a Coreia do Sul também eram uma ditadura), porém de inegável sucesso econômico. A fronteira entre os dois países é a zona mais militarizada do mundo e os dois ainda estão em guerra, já que apenas um armistício, não um tratado de paz, foi assinado.
Há chances reais de uma guerra ?
Do ponto de vista da Coreia do Sul, a chance é zero. Sua economia seria fortemente afetada e mesmo as ultrapassadas armas da vizinha comunista fariam a capital Seul, há poucas centenas de km da fronteira, ser dizimada. Isso explica o fato de que teve um navio militar atacado por um torpedo do Norte e mesmo assim, não ter declarado guerra. Por muito menos, um Chávez por exemplo, iria à guerra contra a Colômbia.
Mas e o Norte ? Pois é... trata-se de um regime fechado ao extremo, nem sequer sabemos se o ditador ainda é vivo ou não, já que só há um meio de comunicação, o oficial, eivado de discusos ensandecidos ao Ocidente e aos porcos imperialistas... Entrar no país é mais difícil que chegar a Marte e a rigor, só a China comunista tem relações diplomáticas consideradas normais com a Coreia do Norte. O interessante é que o Brasil joga com esse país na Copa. Quem sabe um Lula messiânico não quer também aproveitar a deixa e tomar a frente do processo de paz por lá...
Verdade é que ninguém ou quase ninguém sabe o que se passa na Coreia do Norte, muito menos na mente doentia dos dirigentes daquele momunento ao estalinismo em pleno século XXI. A guerra pode até ser opção, embora pouco provável num país que já colapsou faz tempo, mas permanece firme e forte defendendo um regime que nem eles mesmo sabem o que significa. Arroz e energia elétrica faltam na Coreia do Norte, mas não soldados, já que a sociedade é ultra-militarizada. Dá medo, mas ao mesmo tempo mostra de forma cabal o fracasso do comunismo estalinista, ainda curiosamente defendido por boa parte da esquerda brasileira, já que Cuba, versão mais light e tropical da Coreia do Norte, ainda permanece no imaginário esquerdista como o summum bonum da civilização. Quando o regime castrista vai ruir é fácil saber : quando os EUA acabarem com o tosco embargo econômico e quando os irmãos Castro morrerem. Mas e a Coreia do Norte ? Quando Kim Jon Ill morrer ? E se ele já estiver morto ? E eles têm ou não uma bomba nuclear ?
Sobre a Coreia do Norte, a única certeza é quem ganhará a partida contra o Brasil na Copa. O resto, é apenas aposta. Mesmo o placar....
Tensão entre Coreias pode levar a conflito de grande proporção, diz especialista
MARIA CAROLINA ABE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
A situação é cada vez mais tensa entre as Coreias. Após uma investigação internacional, a Coreia do Sul acusou formalmente a Coreia do Norte, na quinta-feira (20), de atacar com um torpedo um navio de sua Marinha em março.
O afundamento da corveta de 1.200 toneladas, perto da fronteira marítima com a Coreia do Norte, provocou a morte de 46 dos 104 marinheiros sul-coreanos. Foi o incidente mais grave ocorrido na disputada fronteira marítima do mar Amarelo entre as duas Coreias desde o cessar-fogo entre as duas nações, em 1953.
O presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, pressiona a comunidade internacional por novas sanções contra a Coreia do Norte. O regime de Kim Jong-il, por sua vez, respondeu com o rompimento das relações com Seul.
Diferentemente da guerra das Coreias dos anos 1950, um conflito hoje teria proporções muito maiores, até porque envolveria as duas grandes potências mundiais --EUA e China--, na opinião de Heni Ozi Cukier, professor de Relações Internacionais da ESPM e especialista em resolução de conflitos internacionais.
Para o analista, o risco de ocorrer uma guerra na Península Coreana não é alto, mas há uma chance e isso exige cautela. Afinal, trata-se de uma zona altamente militarizada e qualquer deslize --seja da Coreia do Sul, que demonstra não querer uma guerra, seja da Coreia do Norte, "peão político no xadrez da China"-- poderia gerar um conflito de escalada muito rápida, afirma Cukier, que já trabalhou no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) e na OEA (Organização dos Estados Americanos).
Leia a íntegra da entrevista que Cukier deu à Folha por telefone.
Folha - Oficialmente, a Coreia do Sul e a Coreia ainda estão em guerra, porque ambas assinaram apenas um armistício em 1953. O que isso representa, simbolicamente, no contexto atual?
Heni Ozi Cukier - Isso simboliza o alto nível de mobilização militar que existe entre os dois países. É a zona mais militarizada do mundo, pode-se dizer. Isso cria uma situação muito frágil, muito tensa, em que qualquer deslize pode levar a uma guerra de proporções enormes. Um disparo errado numa situação de mobilização nesse nível automaticamente leva a uma escalada da violência muito rápida, diferentemente de outros conflitos, onde uma ação demora a ter uma reação e em que há tempo para se dialogar.
Folha - Nesse cenário, se considerarmos o ataque da Coreia do Norte ao navio sul-coreano, isso poderia ser visto como um deslize ou um ataque intencional?
Cukier - Primeiro, eu diria que o ataque existiu e foi cometido pela Coreia do Norte, sem dúvidas. Foram levantadas provas contundentes e houve muita cautela dos sul-coreanos para chegar a essa conclusão. Não responder ao ataque coloca-os numa situação difícil, e responder seria atacar novamente. Isso levaria a uma guerra, o que eles demonstraram claramente que não querem. Seul está há 40 quilômetros dessa fronteira altamente militarizada, seria um alvo fácil, e ambas as Coreias seriam destruídas.
Foi um ataque intencional aparentemente. Agora, a Coreia do Norte está levantando possibilidades para explicar isso --caso seja forçada a tomar uma posição. Está seguindo a linha de culpar um general, e um encaminhamento seria exonerar essa pessoa. Se tiver que assumir a autoria desse ato, vai fazer isso culpando alguém, dizendo que não foi o Estado. Seria a saída política do impasse.
Folha - O senhor acredita que ambas as Coreias estão dispostas a buscar uma solução alternativa ao confronto?
Cukier - A atitude da Coreia do Sul demonstra isso. Foi um ataque de proporções fora do padrão desse armistício, é o ataque mais violento, então a sociedade sul-coreana demanda uma resposta. A Coreia do Sul imediatamente veio a público, criou um grupo de investigações internacionais, e pediu que houvesse punição da comunidade internacional ao ataque da Coreia do Norte. Também indicou que cortaria laços comerciais e de ajuda financeira. Todas as posturas foram no campo de não uso da força, mas sim pressão diplomática e econômica.
As atitudes da Coreia do Norte não levam a crer que o país não queira a guerra: está sempre com ações provocativas, atitudes belicosas, declarações agressivas, buscando aumentar seu poderio bélico, construindo armas atômicas. No fundo, a guerra pode ser perigosa para o regime da Coreia do Norte, pode encerrar o regime de Kim Jong-il, mas essa mobilização do pré-guerra também ajuda a dar força para ele, pois é um país que tem extremos problemas internos. Ele mantém a ordem e o pulso firme no comando do país baseado na ameaça do inimigo externo, que serve para unificar o país em torno dele e minimizar os problemas internos causados com sua gestão.
Folha - E a comunidade internacional também demonstra querer evitar o confronto, não?
Cukier - Sim, porque ninguém quer se envolver em mais uma guerra. Os americanos já estão envolvidos em duas guerras e têm um problema seríssimo com o Irã. Então, outra frente de batalha não seria do interesse deles. Até porque, invariavelmente, envolveria a China. Seria um conflito de proporções globais extremas.
Folha - A China provavelmente se alinharia à Coreia do Norte?
Cukier - Provavelmente. Foi isso que aconteceu na guerra da Coreia [1950-53], quando os americanos entraram ao lado dos sul-coreanos e foram avançando e, quando chegaram muito próximo de conquistar o território, a China entrou na guerra e massacrou as forças americanas sob a bandeira da ONU até parar no meio do caminho de novo. Não é necessário e óbvio que a China entraria em um conflito agora, não é mais uma guerra ideológica entre o capitalismo e o comunismo, mas é difícil de a China não se envolver. A China se preocupa que o governo norte-coreano não caia, porque ela teme que os americanos vão unificar as Coreias e eles terão a presença americana na sua fronteira, sem falar nos problemas econômicos e de refugiados.
Folha - No caso de uma guerra hoje entre as Coreias, como ela seria, comparada à dos anos 1950?
Cukier - Seria um conflito com proporções muito maiores, particularmente se as duas potências se envolvessem --não acredito que de forma direta, mas indireta. Quem perderia mais seriam os coreanos, porque os dois territórios seriam completamente destruídos. E teria repercussões no mundo todo. A gente não consegue medir até que ponto e de que maneira a China se envolveria. Dependeria de como essa guerra fosse eclodir, ou o que causaria a guerra --um ataque da Coreia do Sul provavelmente levaria à entrada dos chineses.
Folha - Considerando que já há sanções em vigor contra a Coreia do Norte, como novas sanções afetariam o país?
Cukier - Em todos os conflitos do mundo, as sanções têm um resultado muito pequeno na mudança do comportamento dos regimes. O mais sacrificado é o povo mesmo, e isso acaba fortalecendo os regimes, porque eles usam isso como arma política dizendo :"vejam o que os outros do mundo estão fazendo conosco, com o povo norte-coreano". Já temos sanções há tanto tempo? O que mudou? Nada. É mais uma questão de legitimidade, de status, de estabelecer um culpado. O que a Coreia do Sul está tentando com isso é estabelecer um status político, mostrando: "vocês estão vendo, quero um reconhecimento cabal da comunidade internacional, por meio das sanções, de quem realmente está cometendo a agressão aqui e como eu estou me comportando". Para ficar muito claro seu direito de legítima defesa futuramente. Mas as sanções não resolvem; a solução é a mudança de regime.
Folha - Mas isso exigindo intervenção internacional?
Cukier - Isso teria de acontecer naturalmente, com a morte dele [Kim Jong-il], uma ruptura. Mas a China teria de deixar isso acontecer, e ela não deixa, porque teme qual seria o resultado dessa ruptura em termos de refugiados e questões econômicas. Além disso, Pequim perderia esse "para-choque" entre seu território e a presença americana na Coreia do Sul. Em terceiro lugar, a China usa a Coreia do Norte como um peão político para seu xadrez regional e global. A Coreia do Norte cumpre o papel de causar problemas que a China não pode causar. Ou, quando a Coreia do Norte causa um problema, a China se mostra como quem pode trazer a solução.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Paraguai : failure state?
Um dos temas recorrentes no estudo de RI é a da falência dos Estados. Não no sentido econômico, do qual a Grécia é triste exemplo, mas no sentido estrutural. Estados que não mais podem ser chamados de tal : judiciário e legislativos corrompidos, executivo quase sempre autoritário e igualmente corrupto, estruturas policiais tomadas pela infiltração do crime organizado, economia sem regras básicas constituídas e sendo efeito e posteriormente causa multiplicadora, caos social acompanhado de soluções políticas extremistas.
Há versões menores deste apocalipse: um quase "failure state" quando o processo de destruição estatal é lento, por dentro, corroendo estruturas internas, quase sempre as essenciais, a saber, a justiça e a polícia, bases de qualquer estado moderno.
Pois bem, na América do Sul, os últimos acontecimentos no Paraguai permitem um olhar preocupado neste membro do Mercosul e vizinho próximo. É sabido a imensa leniência que o estado paraguaio tem com o crime. Todos sabemos que boa parte do contrabando que abastece nossos camelôs vem do Paraguai. Para lá vão nossos carros roubados, cargas roubadas e dinheiro das drogas. Agora, com atentados a um senador e um certo grupo de uma suposta guerrilha, a situação apenas "avançou" um pouco em direção a um perfeito failure state. Aqui, bem pertinho de nós.
Ao invés dos delírios iranianos de nossa política externa e da lamentável condecoração das esposas do Presidente e do Ministro de Relações Exteriores, situação vexaminosa que é um perfeito documento histórico de nosso tempo, toda nossa energia diplomática, e quiçá militar, deveria ser canalizada para ajudar o Paraguai a vencer, ou pelo menos controlar, seus demônios internos. O presidente Lugo, de esquerda, mas responsável nesse ponto, deu sinais claros de que não vai tolerar narco-guerrilhas em seu território, ao contrário de um Chávez que apoia abertamente as Farc. É um bom sinal de que o Paraguai está avançando politicamente. Mas ao Brasil é mais do que apenas um simples dever de pais amigo, é uma questão de sobrevivência fundamental, dar apoio amplo e irrestrito, incluindo militar, insisto, ao Paraguai. Se este pais colapsar, ainda mais do que já é, em parte por nossa culpa após a terrível guerra do século XIX vencida pelo Império, o Brasil será fortemente afetado em seus interesses econômicos lá e aqui e não tenha dúvida, no crime organizado daqui, já muito articulado internacionalmente. No fim de um governo que teve uma política externa delirante, o Paraguai pode ser a derradeira prova de fogo se ainda há vida inteligente no Itamaraty.
Há versões menores deste apocalipse: um quase "failure state" quando o processo de destruição estatal é lento, por dentro, corroendo estruturas internas, quase sempre as essenciais, a saber, a justiça e a polícia, bases de qualquer estado moderno.
Pois bem, na América do Sul, os últimos acontecimentos no Paraguai permitem um olhar preocupado neste membro do Mercosul e vizinho próximo. É sabido a imensa leniência que o estado paraguaio tem com o crime. Todos sabemos que boa parte do contrabando que abastece nossos camelôs vem do Paraguai. Para lá vão nossos carros roubados, cargas roubadas e dinheiro das drogas. Agora, com atentados a um senador e um certo grupo de uma suposta guerrilha, a situação apenas "avançou" um pouco em direção a um perfeito failure state. Aqui, bem pertinho de nós.
Ao invés dos delírios iranianos de nossa política externa e da lamentável condecoração das esposas do Presidente e do Ministro de Relações Exteriores, situação vexaminosa que é um perfeito documento histórico de nosso tempo, toda nossa energia diplomática, e quiçá militar, deveria ser canalizada para ajudar o Paraguai a vencer, ou pelo menos controlar, seus demônios internos. O presidente Lugo, de esquerda, mas responsável nesse ponto, deu sinais claros de que não vai tolerar narco-guerrilhas em seu território, ao contrário de um Chávez que apoia abertamente as Farc. É um bom sinal de que o Paraguai está avançando politicamente. Mas ao Brasil é mais do que apenas um simples dever de pais amigo, é uma questão de sobrevivência fundamental, dar apoio amplo e irrestrito, incluindo militar, insisto, ao Paraguai. Se este pais colapsar, ainda mais do que já é, em parte por nossa culpa após a terrível guerra do século XIX vencida pelo Império, o Brasil será fortemente afetado em seus interesses econômicos lá e aqui e não tenha dúvida, no crime organizado daqui, já muito articulado internacionalmente. No fim de um governo que teve uma política externa delirante, o Paraguai pode ser a derradeira prova de fogo se ainda há vida inteligente no Itamaraty.
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